 |
 |
|
Nelson
Piquet
|
Nacionalidade:
Brasileira (Rio de Janeiro)
Nascido em: 17 de agosto de 1952
os números:
3
títulos mundiais (1981, 1983, 1987)
204 participações
23 vitórias
60 pódiuns
24 poles
23 voltas mais rápidas
485.5 pontos
A
pouca memória das pessoas costuma ser implacável,
mesmo para com aqueles que tiveram a oportunidades de realizar grandes
feitos em sua vida. Talvez por isso seja necessário dar,
de vez em quando, uma mãozinha aos enferrujados neurônios
do (in)consciente coletivo.
Uma maneira
de ajudar as pessoas e suas sinapses emperradas é chocá-las,
surrá-las, esbofeteá-las com o verbo. E nessa técnica
existe um mestre, chamado Nelson Piquet Souto Maior. O piloto aqui
e acolá aparece dando uma entrevista que vira o mundo de
cabeça para baixo e desperta toda polêmica que se pode
imaginar.
Chega a ser
absurdo que Nelson seja mais comentado por suas declarações
bombásticas, controvertidas e, não raro, desmedidas.
Afinal, Piquet é um tri-campeão de Fórmula
1, de tempos em que já se assistia a corridas a cores e em
estéreo. Afinal, Piquet é um homem extremamente bem
sucedido em seus negócios fora das pistas. Afinal, Piquet
é ainda um militante ativo no automobilismo brasileiro. Afinal
Piquet é... Piquet!

Nelson iniciou
sua longa e brilhante carreira no automobilismo como a maioria o
fez: através dos karts, em 1970. O que rapidamente ficou
claro para todos é que, diferente da maioria, o jovem Nelson
tinha um algo mais: era por demais veloz. Além disso, era
de espantar a maneira como o adolescente que vivia metido em brincadeiras
e confusões (contadas pelo próprio Nelson) se entregava
a cada minúcia, a cada detalhe do kart. Tudo em busca de
uma melhor resposta por parte da pequena máquina, tudo em
busca de velocidade. Aquela era a sua brincadeira mais séria
e, extremamente inteligente e curioso, Nelson logo se tornaria um
expert nos assuntos de mecânica, acerto, etc.
O auto-didatismo
sujo de graxa de Piquet não tardaria a dar frutos. Após
conquistar o título brasileiro de kart, Piquet ingressou
nas disputas de Fórmula Super Vee e carros esporte. Muitas
vitórias depois, o brasileiro arrumaria as malas para a Europa
em 1977. Naquele ano, ele viria a disputar o Campeonato Europeu
de Fórmula 3, vencendo duas etapas. No ano seguinte, em 1978,
Piquet tomaria a decisão correta de se concentrar na série
britânica da categoria e se sagraria campeão derrotando
Derek Warwick e o também brasileiro Chico Serra, confirmando
a F3 Inglesa como grande celeiro de talentos.

|
|
 |
|
Estréia
na F-1
|
Antes que o
ano de 1978 terminasse, Piquet já estava fazendo seu debut
na categoria máxima do automobilismo. Foi-se a virgindade
número 1. No GP da Alemanha, Nelson classificaria seu Ensign
N177 com motor Ford em 21o no grid, abandonando após 31 volta
com um motor estourado. A categoria podia ser máxima, mas
a estrutura da equipe (Team Tissot Ensign) era mínima. Nas
10 provas anteriores ao GP germânico, em 6 delas pelo menos
um dos carros da Ensign não havia obtido tempo suficiente
para se classificar. O rodízio de pilotos no time era enorme
(Piquet era o sétimo piloto a entrar naquele cockpit) e nem
mesmo as quatro participações de Jacky Ickx salvaram
a Ensign de tantos vexames.
Felizmente para
Nelson, aquela seria a primeira e única vez que ele pilotaria
um Ensign. Nos três GPs seguintes (Áustria, Holanda
e Itália), o brasileiro pilotaria um modelo McLaren de dois
anos atrás (M23), conseguindo terminar um GP pela primeira
vez em Monza. No entanto, a BS Fabrications, equipe para a qual
Nelson pilotara nessas três provas, não participou
dos dois últimos GPs da temporada. Piquet, então,
não pôde participar da prova de Watkins Glen, mas já
no Canadá ele sentaria pela primeira vez em um carro da Brabham,
ao lado de John Watson e Niki Lauda.
O ano de 1979
marcaria a primeira temporada completa de Piquet. Ele iria dividir
a equipe com um já consagrado bi-campeão mundial e
naturalmente seria Lauda o piloto a receber maiores atenções
da equipe. Nas 13 primeiras provas, no entanto, uma surpresa. O
jovem e pouco conhecido piloto brasileiro se impôs e disputava
seu espaço de igual para igual com o bi-campeão. Salvo
um par de exceções, os dois pilotos marcavam tempos
próximos nas classificações e o placar era
de apenas 7 a 6 a favor de Lauda. Piquet já havia marcado
seus primeiros pontos na categoria (um total de 3, com o 4o lugar
em Zandvoort) quando, no GP do Canadá, Lauda lança
a bomba, anunciando a aposentadoria. O posto de primeiro piloto
da Brabham agora era, sem qualquer vestígio de disputa, do
brasileiro Nelson Piquet.
A temporada
de 1980 começaria com o primeiro podium da carreira de Piquet,
com a 2a colocação no GP da Argentina. Um acidente
o tiraria do GP do Brasil, mas Nelson voltaria a marcar pontos na
África do Sul, com um 4o lugar. A primeira pole e a primeira
vitória viriam já na etapa seguinte, em Watkins Glen,
no dia 30 de março de 1980, em que Piquet teve a oportunidade
de compartilhar o podium com Émerson Fittipaldi. Nelson ainda
venceria outras duas provas naquela temporada, na Holanda e em Ímola.
Outros resultados expressivos naquele ano foram o 2o lugar na Inglaterra,
o 3o em Mônaco, o 4o na França e Alemanha e o 5o na
Áustria. Piquet encerraria o ano com o vice-campeonato, 13
pontos atrás de Alan Jones, que decidiu a temporada a seu
favor ao vencer os dois últimos GPs (Canadá e Watkins
Glen), em que Piquet abandonou. Ficava claro, no entanto, que Nelson
emergia como uma força definitiva do automobilismo mundial,
não podendo ficar de fora da lista de favoritos para o campeonato
do ano seguinte.

Após
a duas primeiras provas do ano, disputadas em Long Beach e Jacarepaguá,
as esperanças de um novo título mundial para um piloto
brasileiro (o primeiro após o bi-campeonato de Émerson)
aparentemente iriam ficar para 1982. A Williams faria duas dobradinhas,
com Alan Jones vencendo o GP do Oeste dos EUA seguido de Carlos
Reutemann e as posições se invertendo no Brasil, prova
vencida pelo argentino. Ficava claro que o Williams FW07C era o
carro a ser batido naquele ano. Na primeira prova, Piquet ainda
chegaria em 3o para completar o podium, mas no Rio de Janeiro as
alegrias do brasileiro se limitaram à pole position.
Na Argentina,
Piquet conseguiu vencer a primeira prova do ano, ao ser mais rápido
durante todo o fim de semana, inclusive marcando duas poles consecutivas
pela primeira vez em sua carreira. Reutemann chegaria em segundo,
com um certo jovem de nacionalidade francesa subindo ao degrau mais
baixo. Esse francesinho franzino e narigudo, que havia demolido
John Watson na temporada anterior (quando os dois correram pela
McLaren) era agora piloto da Renault e atendia pelo nome de Alain
Prost. Jones foi o 4o. Piquet seguiria firme com uma nova vitória
em San Marino, deixando Reutemann em 3o, enquanto Jones ficava de
fora da zona de pontuação. Na Bélgica, veio
a reação do piloto argentino, com Piquet e Jones abandonando.
Gilles Villeneuve faria uma fantástica corrida nas ruas de
Monte Carlo para vencer o tradicional GP de Mônaco, quase
40s à frente de Alan Jones, o segundo colocado. Nova vitória
de Gilles na Espanha trazia o piloto ferrarista para o quadro de
disputa do campeonato. Dois acidentes tirariam Piquet de ambas as
etapas. Na França, uma cena que se repetiria inúmeras
vezes no futuro se desenhou pela primeira vez, com Alain Prost no
topo do pódium. Piquet chegaria em terceiro, diminuindo a
diferença para Reutemann. O argentino responderia com o segundo
lugar na Inglaterra, GP vencido por John Watson. Na seqüência,
Piquet sairia da sexta posição no grid para derrotar
o pole position Alain Prost e se sagrar vencedor do GP de Hockenheim.
Novos pódiuns de Nelson na Áustria (prova vencida
por Jacques Laffite) e na Holanda (GP dominado por Prost) deixariam
o campeonato completamente indefinido, faltando ainda três
provas para o final.
Prost venceria
a primeira dessas três corridas, em Monza, seguido pelos dois
pilotos da Williams (Jones em 2o e Reutemann em 3o). Piquet, mesmo
tendo problemas de motor na volta final, ainda conseguria marcar
um ponto. Duas semanas depois, no Canadá, Laffite venceria
com a Ligier-Gitanes no molhado, com Watson em segundo e Villeneuve
em terceiro. Dos principais candidatos ao título somente
Piquet pontuaria, ao chegar em 5o lugar.
|
|
 |
|
GP
de Las Vegas (EUA)
|
A última
prova do ano seria disputada em Las Vegas, em pista improvisada
em um estacionamento junto ao Caesars Palace Hotel. Reutemann
chegava ao final da temporada como líder e marcara a pole.
O argentino tinha 49 pontos, contra 48 de Piquet e 43 de Laffite,
que também tinha aspirações ao título.
O clima na Williams, no entanto, não era nada bom, uma vez
que Lole (como foi apelidado o piloto argentino) havia subvertido
a hierarquia na equipe e não só enfrentado como sistematicamente
derrotado o favorito do time, Alan Jones. O resultado final da prova,
no entanto, não poderia ter sido mais frustrante para Reutemann.
Jones venceria e o argentino ficaria fora da zona de pontuação.
Piquet chegaria em quinto, conquistando os dois pontos necessários
para virar o jogo. Com 50 pontos, contra 49 de Reutemann, 46 de
Jones, 44 de Laffite e 43 de Prost, Nelson Piquet repetiria o feito
de Fittipaldi, sagrando-se campeão mundial de Fórmula
1, em um dos campeonatos de menor diferença de pontuação
na história da categoria.

O ano de 1982
não foi fácil para Piquet, já que a Brabham
havia tomado a decisão de trocar os motores aspirados da
Ford pelos propulsores turbo-comprimidos da BMW. O brasileiro teve
de abandonar diversas corridas com problemas mecânicos (Mônaco,
Inglaterra, França, Áustria, Itália e Las Vegas).
Somando-se os acidentes na África do Sul, Alemanha e Long
Beach, a temporada se encerrou com um total de nove abandonos. Sensação
pior do que bater ou ter o carro quebrado, porém, Piquet
teve no GP do Brasil. O piloto da casa venceu na pista, mas ele
e Keke Rosberg da Williams, que havia terminado em segundo, foram
desclassificados, após ter sido constatado que seus carros
estavam abaixo do peso mínimo. A única vitória
na temporada aconteceria no GP do Canadá, em que a Brabham-BMW
marcaria uma impressionante dobradinha, com Piquet em 1o e Patrese
em 2o. Outros resultados significativos de Piquet em 1982 foram
o 2o lugar na Holanda, a 4a colocação em Dijon-Prenois
e o 5o posto na Bélgica, que lhe valeram um total de 20 pontos
e a décima-primeira posição no campeonato.
Para a temporada
de 1983, a Brabham BT52, equipada com motor BMW turbo, se mostraria
um carro bem mais confiável do que seu predecessor do ano
anterior. Piquet venceria a prova de abertura, em Jacarepaguá,
após largar na segunda fila. No GP de Long Beach, vencido
por John Watson (em dobradinha com Niki Lauda, na McLaren), problemas
no acelerador tirariam Piquet da corrida. Prost, ao volante de sua
Renault, dominaria o GP da França, ao largar na pole e chegar
quase 30s à frente de Piquet, o segundo colocado.
As Ferrari andariam bem em Ímola, com Arnoux marcando a pole
e chegado em terceiro, e seu companheiro de equipe, Patrick Tambay,
vencendo a prova. A segunda colocação de Alain Prost
colocava o pequeno francês na luta pelo título. Keke
Rosberg venceria o GP de Mônaco, com Piquet em segundo e Prost,
que havia largado na pole, em terceiro. No GP da Bélgica,
Prost voltaria a vencer, com Piquet apenas em 4o. O GP de Detroit
terminaria em surpresa, com a vitória de Alboreto ao volante
de uma Tyrrel. Rosberg e Watson completariam o pódium, enquanto
Piquet completaria em quarto e Prost ficaria fora da zona de pontuação.
Arnoux selaria a segunda vitória da Ferrari na semana seguinte,
em Detroit, seguido de Cheever e Tambay, com Piquet mais uma vez
abandonando com problemas de acelerador. Em Silverstone, nova vitória
de Prost, com Piquet em segundo, após a Ferrari ter dominado
os treinos e conquistado a primeira fila. Piquet teve o carro incendiado
no GP da Alemanha, o que complicaria a sua situação
no campeonato. René Arnoux receberia a bandeira quadriculada
em primeiro lugar, seguido de Andréa de Cesaris, Riccardo
Patrese e Alain Prost. Tambay seria o pole position do GP da Áustria,
mas um vazamento tiraria o ferrarista da corrida. Prost terminaria
em primeiro, com Arnoux e Piquet completando o pódium. Piquet
marcou a pole para a prova de Zandvoort, mas o brasileiro e Prost
se acidentaram. Com isso, a Ferrari marcou uma surpreendente dobradinha,
colocando seus dois pilotos no páreo para disputar o título.
Faltando três
provas para o encerramento da temporada de 1983, Prost era o líder,
com uma vantagem de 8 pontos para Arnoux e 14 pontos para Piquet
e Tambay. Tudo dava a entender que o campeonato ficaria com um francês,
quando Piquet iniciou uma reação fantástica
ao final da temporada. Enquanto seu companheiro de equipe Riccardo
Patrese fazia a pole em Monza, mas abandonava com problemas elétricos,
o brasileiro vencia. Arnoux chegaria em segundo, com Tambay em quarto.
O turbo do Renault de Prost o traiu. As chances de Tambay eram,
agora, remotas, mas apenas 5 pontos separavam Prost de Piquet (com
Arnoux entre os dois).
O GP da Europa,
em Brands Hatch, começaria com Elio de Angelis e Riccardo
Patrese dividindo a primeira fila. Os protagonistas da disputa pelo
título viriam mais atrás: Piquet em 4o, Arnoux em
5o, Tambay em 6o e Prost em 8o. Tambay deu adeus ao título
ao se acidentar faltando 9 voltas para o final da corrida. Arnoux
teria problemas de rendimento na Ferrari e ficaria fora dos pontos.
Piquet e Prost sobreviveriam para ocupar os dois lugares mais altos
do pódium, com o brasileiro em 1o e o francês em 2o.
|
|
 |
|
GP
de Brands Hatch (1983)
|
As três
semanas que separariam o GP da Europa do GP da África do
Sul (encerramento da temporada) seriam marcadas por forte tensão.
Para Arnoux, apenas a vitória interessava, e o piloto da
Ferrari ainda teria de torcer por para Prost não terminar
a prova. Se Piquet vencesse, o título seria seu, independente
da posição de chegada do piloto da Renault. Para Prost,
bastava chegar à frente do brasileiro para o primeiro título
ser seu. Nos treinos, Patrick Tambay marcaria a pole, dando a entender
que Arnoux poderia ter um bom rendimento na corrida. As Brabhams
viriam em seguida, com Piquet e Patrese. Arnoux completava a segunda
fila, enquanto Prost abria a terceira. O campeonato terminaria para
Arnoux já na volta de número 9, com o motor Ferrari
estourado. Mais 26 voltas e era a vez de Alain Prost ter problemas
com seu Renault. Ao francês não restava mais nada,
a não ser torcer contra Piquet. O brasileiro, no entanto,
pilotou de maneira impecável, poupando o carro e evitando
problemas, para chegar em terceiro lugar. Patrese, seu companheiro
na Brabham, venceria a prova, mas o troféu mais importante
ia mesmo para as mãos do brasileiro: Piquet repetia o feito
de Émerson e se tornava bi-campeão do mundo!

Em 1984 e 1985,
a equipe Brabham não repetiria os bons desempenhos dos anos
anteriores e Piquet terminaria aquelas temporadas apenas em quinto
e oitavo, respectivamente. Em 1984, ano que marcaria a entrada de
Ayrton Senna na Fórmula 1, Piquet marcaria apenas 29 pontos,
com vitórias no Canadá e Detroit, o 2o lugar na Áustria,
o 3o em Nurburgring, o 6o Portugal e abandonos no Brasil, África
do Sul, Bélgica, San Marino, França, Mônaco,
Dallas, Alemanha, Holanda e Itália (dez ao todo). Em 1985,
o cenário seria ainda pior, com os 21 pontos conquistados
através de uma vitória na França, um 2o lugar
na Itália, um 4o na Inglaterra, um 5o na Bélgica e
um 6o em Detroit e Piquet abandonando 10 provas novamente: Brasil,
Portugal (vencido por Senna), San Marino, Mônaco, Canadá,
Alemanha, Áustria, Europa, África do Sul e Austrália.
A Brabham já
não tinha o que oferecer e a grande oportunidade apareceu
diante de Piquet: a transferência para a Williams. A equipe
de Frank Williams passou a usar motores Honda em 1983 e começou
a colher os frutos do magnífico trabalho dos engenheiros
japoneses ao final de 1985, quando as Williams-Honda de Mansell
e Rosberg venceram as três últimas provas da temporada
(Europa, África do Sul, com direito a dobradinha, e Austrália).
Com a saída do finlandês Keke Rosberg, Piquet seria
companheiro de equipe do inglês Nigel Mansell e forte candidato
ao título.

|
|
 |
|
Na
Williams em 1986
|
Apesar de Senna
ter dominado os treinos de classificação ao longo
da temporada, a superioridade de equipamento da Williams era visível,
ao se constatar que mais da metade das provas (nove, em um total
de dezesseis) foram vencidas por Piquet ou Mansell, contra quatro
vitórias de McLaren, com Prost, .duas da Lotus, com Senna,
e uma da Benetton, com Berger. A luta interna no time de Frank Williams,
entretanto, veio a permitir que Senna e especialmente Prost, mesmo
com equipamentos inferiores, disputassem o título com a dupla
de pilotos da Williams. Como se sabe, Prost levou a melhor, conquistando
o primeiro de uma série de quatro títulos mundiais.
A abertura do
campeonato não poderia ter sido melhor para o automobilismo
brasileiro, com Piquet vencendo a prova em Jacarepaguá, com
Senna em segundo, após terem ocupado a primeira fila do grid
em ordem inversa. Piquet conquistaria outras 3 vitórias naquele
ano: Alemanha, Hungria (estas duas em seqüência) e Itália.
A vitória de Piquet na Hungria só viria após
travar um intenso duelo com seu compatriota da Lotus. Mesmo com
um equipamento inferior, as características travadas do circuito
de Hungaroring permitiam a Senna defender sua posição.
Senna buscava fazer o melhor traçado e obrigar Piquet a adotar
uma outra trajetória, o que permitiu que, em um dado momento,
o piloto da Lotus desse o troco, logo após ser ultrapassado
pelo compatriota da Williams. A batalha se decidiria em uma manobra
tida como uma das mais belas da história recente da Fórmula
1, em que Nelson surpreendeu Ayrton e ultrapassou por fora.
Até antes
do GP de encerramento, nas ruas de Adelaide, Piquet havia obtido
outros bons resultados, como os pódiuns em Ímola,
Montreal, Paul Ricard e Estoril, além da 4a posição
no México. O total de pontos de Piquet, no entanto, era inferior
ao de Mansell, então líder do campeonato. O inglês
conquistara a pole no GP Australiano, dando a entender que se sagraria
campeão, derrotando Prost e Piquet. Um pneu furado, no entanto,
fez Mansell abandonar, permitindo ao sempre mais cauteloso Nelson
Piquet assumir a liderança da corrida. Mas o desgaste dos
pneus das Williams era muito acentuado e Piquet decidiu efetuar
uma troca que deixou Alain Prost à frente. O francês
levaria sua McLaren até o final, chegando 4.2s à frente
de Piquet, o segundo colocado. Após uma prova emocionante,
em que o título passou pelas mãos de três pilotos
diferentes, Prost conquistava seu primeiro campeonato, com 72 pontos,
deixando Mansell com 70 pontos e Piquet com 69. A temporada de 1986,
que trazia tantas esperanças para Nelson Piquet, terminou,
assim, em frustração para a torcida brasileira.
Em 1987, porém,
a superioridade da Williams mostrou-se ainda mais absoluta. Prost
e Senna, mesmo eventualmente ganhando corridas, tiveram de se contentar
com o papel de figurantes, numa temporada em que os papéis
de protagonistas ficaram restritos a Piquet e Mansell.
No GP do Brasil,
Mansell largou na pole, disposto a continuar na cruzada pelo título
mundial. Mas foi Prost quem levou a melhor e venceu a prova, com
Piquet cruzando a linha de chegada em segundo. Na prova seguinte,
em Ímola (vencida por Mansell), Piquet sofreria um grave
acidente. Além de não disputar o GP, a forte batida
no muro da Tamburello (a mesma curva que vitimaria Senna 7 anos
depois) deixaria seqüelas sobre o então bi-campeão.
O próprio Nelson admite que jamais voltaria a ser tão
veloz quanto antes, após aquele acidente. Para a torcida
brasileira, restava o consolo que Piquet continuaria sagaz e astuto,
e usaria essas qualidades como armas no duelo contra Nigel Mansell
em 1987.
|
|
 |
|
Treinos
para o GP de San Marino (1987) - Curva Tamburello
|
Na Bélgica,
Mansell, Piquet e Senna abandonariam, deixando o caminho livre para
Prost vencer de maneira surpreendente e, após três
provas, o francês punha-se a liderar o campeonato. Em Mônaco,
Piquet reagiria, ao chegar em segundo, atrás de Senna. A
mesma dobradinha brasileira, e na mesma ordem, se repetiria em outro
circuito de rua: Detroit. Senna era o novo líder do campeonato,
com Prost em segundo, mas a verdade dos equipamentos não
tardaria a ser restaurada.
Já na
França, Mansell dominaria, vencendo da pole, seguido de Piquet.
A Williams repetiria a dobradinha na Inglaterra. A liderança
de Senna resistiria apenas até o GP da Alemanha, vencido
por Piquet. Apesar de aquela ter sido a primeira vitória
de Nelson na temporada (contra 3 de Mansell e 2 de Senna e Prost),
ele assumiria a ponta do campeonato, graças aos pontos acumulados
com cinco segundos lugares. Piquet repetiria o feito do ano anterior
e venceria na Hungria. Mansell reagiria, vencendo na Áustria,
com Piquet chegando em segundo. Em Monza, Piquet voltou a vencer,
seguido de Senna e Mansell, dando à Williams de suspensão
ativa uma estréia de gala. No Estoril, assistimos a um dos
raros momentos em que as Williams não tiveram os carros mais
rápidos, com Berger fazendo a pole, ao volante de sua Ferrari,
e Prost conquistando a vitória, a bordo de sua McLaren. Como
Mansell havia abandonado com problemas elétricos, o terceiro
posto havia ficado de bom tamanho para Piquet. Em Jerez, Piquet
marcou a pole, mas Mansell assumiu a ponta na largada, liderando
até o final. Nova vitória do inglês aconteceria
no México, prova em que Piquet completaria em segundo.
|
|
|
Nelson
Piquet (segundo plano) - Nigel Mansell (primeiro
plano)
|
Faltando duas
provas para o encerramento da temporada, Piquet liderava e a pressão
estava toda sobre Mansell. Nos treinos para o GP do Japão,
o inglês bateu forte e não teria condições
de disputar a prova. Berger venceria a corrida em Suzuka e repetiria
o feito na Austrália. Com Mansell ausente das pistas, no
entanto, o campeonato se definiu. Mais regular, mais experiente,
mais astuto e psicologicamente mais forte, Piquet se sagrava tri-campeão
do mundo, com três vitórias, outros nove pódiuns
e 73 pontos.

Dentre as rivalidades
que se viram dentro de uma mesma equipe na Fórmula 1, a de
Senna e Prost na McLaren é a mais conhecida. No entanto,
aquela que existiu entre Piquet e Mansell enquanto estes dividiram
a Williams não foi menos intensa. De personalidades e estilos
de pilotagem diferentes não foram poucos os momentos em que
a disputa passou dos limites. Em 1986, em Brands Hatch, Mansell
fecharia a porta ao brasileiro e venceria a corrida. Piquet, com
base na sua condição contratual de primeiro piloto,
acusaria Mansell, e alegaria que o inglês deveria ter-lhe
dado passagem. Em 1987, o brasileiro se queixaria freqüentemente
da existência de um tratamento diferenciado dentro da Williams,
com Mansell recebendo a preferência. Mansell retrucava, afirmando
que a Honda favorecia Piquet. Um dos poucos fatos de conhecimento
público, no entanto, foi que, após ter assegurado
a conquista do título no Japão, Piquet foi deixado
só com seus familiares, sem receber sequer uma mensagem de
parabenização da parte de Frank Williams. Após
sair da equipe, Piquet ainda lançaria farpas contra seu rival
e ex-companheiro de equipe, em entrevista para a Playboy brasileira.
Deixar a Williams
e ir para a Lotus supostamente permitiria a Piquet respirar novos
ares. Tendo perdido Ayrton Senna para a McLaren, a Lotus via em
Piquet a esperança de manter o time nas disputas do pelotão
da frente, ao mesmo tempo em que desenvolveria seu equipamento,
com a ajuda do experiente tri-campeão (a Lotus, apesar de
contar com bons propulsores, tinha um chassis reconhecidamente mais
fraco que suas rivais). No entanto, os avanços não
vieram e Piquet passou por momentos difíceis em 1988 e 1989.
Em 1988, Piquet
ficaria limitado a 22 pontos. Seus melhores resultados haviam sido
os pódiuns no Brasil, San Marino e Austrália (sempre
na terceira posição). Em 1989, deixando de contar
com o suporte da Honda e tendo de apelar para os propulsores Judd,
a Lotus confirmou que seu declínio era inexorável.
Piquet marcaria apenas 12 pontos, graças às quartas
colocações no Canadá, na Inglaterra e no Japão,
o quinto posto na Alemanha e o sexto lugar na Hungria. As frustrações
eram incontáveis e Piquet terminou por abandonar cinco GPs
envolvido em acidentes.
Em 1990, Flavio
Briatore e a Benetton dariam a Piquet a possibilidade de ter um
carro competitivo. Se não era possível andar na mesma
balada das McLaren, a Benetton pelo menos tinha o mérito
de ser um time em ascensão, duplicando os pontos marcados
no campeonato de construtores entre 1986 (quando marcou 19 pontos)
e 1989 (quando anotou 39). Piquet e sua experiência eram talvez
os elementos que faltavam ao time para se prepararem para a chegada
dos tempos de Michael Schumacher. A Benetton deu a Piquet a possibilidade
de encerrar com a devida dignidade uma carreira repleta de glórias
e vitórias.
|
|
 |
|
Andando
tudo e mais um pouco na Benetton...
|
De fato, 1990
mostrou-se uma das mais belas temporadas do piloto brasileiro. Piquet
marcou pontos em quase todas as provas, exceção feita
a duas em que abandonou, uma em que foi desclassificado e uma em
que chegou em sétimo. O brasileiro subiu quatro vezes ao
pódium, incluindo as duas vitórias consecutivas nas
duas provas que encerraram a temporada: Japão (em dobradinha
com Roberto Pupo Moreno) e Austrália. Com 43 pontos, Piquet
terminaria o ano em terceiro lugar, ao lado de Gerhard Berger e
atrás somente de Senna e Prost. Em 1991, Piquet voltaria
a pontuar em diversas oportunidades, subiria ao pódium por
duas vezes (incluindo a sua última vitória na F1,
no GP do Canadá) e encerraria o seu último campeonato
na sexta posição, com 26.5 pontos.

É impossível
ficar indiferente ou neutro quando o assunto é Nélson
Piquet de Souto Maior. O segundo brasileiro a se sagrar campeão
de Fórmula 1, após Émerson Fittipaldi tem uma
vocação incomparável para gerar polêmica
e, portanto, para dividir as opiniões.
Uma a uma, as
declarações de Piquet na imprensa sempre caíram
como uma bomba. Muitas vezes, as palavras de Nelson atraem tanto
os holofotes, que chega-se a esquecer os seus feitos nas pistas
e passa-se a atacar ou defender o polemista, esquecendo o piloto.
E no terreno da faixa de asfalto entre zebras, guard-rails e caixas
de brita, goste-se ou não do que Piquet diz fora dela, Piquet
deixou seu nome gravado na galeria dos grandes vencedores.
Às vezes,
dá até para questionar se faz sentido tanta briga
e discussão em torno de um dos tri-campeões de F1
que o Brasil pariu. O fato é que Piquet sempre foi extremamente
brincalhão, e fica sempre a dúvida se suas declarações
não são apenas mais uma grande brincadeira de Nelson.
É possível que sim, afinal todos os amantes do automobilismo
vira-e-mexe se envolvem na grande comédia que é ficar
discutindo os ditos controvertidos de Piquet. Shhh! Façam
silêncio! Dá para ouvir gargalhadas... Deve ser Nelson,
rindo de todos nós..
|
|
|
Este
é o verdadeiro Piquet...
|
|
|
Texto de Alexandre Araújo Costa |

voltar
|