F1 – Vitória da Ferrari no Bahrain e Alonso na Indy 500

Sebastian Vettel no Bahrain

Sebastian Vettel no Bahrain

Por: Adauto Silva

O GP do Bahrain está formando uma tradição de ser uma ótima corrida, quem diria. Em 2014 foi a melhor corrida da temporada, 2015 e 2016 também foram corridas muito boas e essa de domingo passado foi ótima!

Sebastian Vettel mostrou mais uma vez que com o melhor equipamento ele entrega. Ganhou na Austrália parando depois de Hamilton e domingo ganhou no Bahrain parando antes. Não ganhou na China por dois fatores: um safety-car na hora errada – quando ele já tinha trocado seus pneus para slicks e a Mercedes não – e por Kimi Raikkonen depois tê-lo segurado atrás por praticamente 20 voltas.

Se não fossem essas circunstâncias na China, Vettel teria vencido as três corridas da temporada até agora e já estaria com 75 pontos no campeonato contra 54 de Hamilton, ou seja, 21 pontos de vantagem sobre Hamilton em apenas três corridas.

E vencer ambas as Mercedes mesmo largando atrás delas, comprova definitivamente que a Ferrari tem o melhor equipamento – que continua sendo muito bem desenvolvido – e que Kimi Raikkonen está em seu útlimo ano na Ferrari e provavelmente na Formula 1.

Eu tinha tanta confiança na força da Ferrari para a corrida de domingo, que desenhei como Vettel poderia vencer – mesmo largando atrás das duas Mercedes – num comentário respondendo uma pergunta que me foi feita embaixo da última coluna que publiquei no sábado passado. E que ninguém se engane com a aproximação final de Hamilton. Ali o inglês estava dando tudo e Vettel administrando, pois com a vitória no bolso, o alemão fez o que tinha que fazer, ou seja, economizar motor, porque essa mesma unidade de potência tem que aguentar no mínimo mais duas corridas ainda.

Sobre o Bottas, ele que me desculpe, mas não tem do que reclamar. Primeiro que ele mesmo já sabia que se em alguma corrida ele estivesse na frente do Hamilton e andando mais devagar que o inglês, a equipe ia mandá-lo sair da frente. Ele não é criança, já está na F1 há alguns anos e sabe como as coisas funcionam.

Segundo, ele não tinha ritmo de corrida. Vettel ficou empurrando-o no começo e foi-se armando um esquadrão atrás dele, até com a Red Bull apertando ali. O Hamilton tinha ritmo e mostrou isso a corrida toda, principalmente no terceiro stint, quando chegou muito rápido no Bottas e era evidente que a Mercedes não ia deixar o finlandês segurar o Hamilton, que tinha alguma possibilidade de chegar no Vettel, enquanto Bottas não tinha. Tanto não tinha que chegou mais de 20 segundos atrás.

Muito me espanta a Ferrari não ter mandado o Raikkonen sair da frente do Vettel na China e assim acabar com as esperanças da equipe vencer a corrida. Mas a Scuderia não cometeu o mesmo erro no Bahrain e Kimi saiu da frente do Vettel rapidinho quando o alemão chegou.

Muita gente ainda não percebeu, mas a briga nessa temporada é totalmente diferente daquelas que vimos de 2010 a 2013 na Red Bull e de 2014 a 2016 na Mercedes. Hoje não são dois pilotos da mesma equipe com o melhor carro disparado brigando apenas entre eles pelo título, mas sim o piloto de uma equipe contra o piloto de outra equipe.

Bottas teve no Bahrain sua primeira chance de demonstrar que conseguiria vencer uma corrida largando da pole. Não conseguiu, não tinha ritmo para segurar Vettel e depois não teve ritmo para fugir de Hamilton. Vai ter outras chances? Provavelmente sim. Mas a primeira ele perdeu.

Veja como foi a troca de mensagens de rádio da Mercedes com seus pilotos mostrada pela transmissão internacional:

Volta 20: Hamilton para a equipe: “Precisamos aumentar o ritmo. Não podemos deixar a Ferrari ir embora.”
Equipe responde: “Ok, entendido.”
Equipe para Bottas: “Então Valtteri, é importante você acompanhar Vettel. Lewis está atrás no ‘estágio 6’ com pneu macio, então você precisa ficar com Vettel.”
Bottas responde: “Entendido”
Equipe responde: “Então Valtteri precisamos que você esteja a um segundo de Vettel, você precisa estar na zona do DRS, e você terá um máximo de duas voltas para conseguir isso, Ok.”

Volta 21: Equipe para Bottas: “Então, por favor, deixe Lewis passar.”
Bottas responde: “Você pode confirmar? Acabei de abrir um pouco na última volta.”
Equipe para Hamilton: “Ok Lewis, aproxime-se de Valtteri. Ele recebeu a mensagem.”
Hamilton: “Se ele aumentar seu ritmo, ele deveria estar bem. Se eu não puder alcança-lo, se eu passar, não consigo me recuperar um pouco. Diga-nos em que tag estamos.”
Hamilton: “Tag dois.”

Volta 27: Equipe para Bottas: “E por favor deixe Lewis passar. Lewis tem uma punição de cinco segundos.”
Bottas: “Entendido. Vou deixá-lo passar.”
Equipe responde: “Então é importante você ficar perto de Lewis, obviamente.”
Bottas: “Pneus traseiros estão superaquecendo. O macio será melhor.”

Volta 31: Equipe para Bottas: “Box, vamos colocar pneus macios, vai ser apertado na saída, precisa de um bom pit stop.”

O que vai acontecer a seguir dia 30 deste mês Sochi? Se a Mercedes não apresentar atualizações significativas no carro, a chance de Vettel vencer de novo é grande. O que eu sei é que a Mercedes está muito focada na degradação dos pneus, o que indica ser um problema de suspensão, de aero ou a soma dos dois. De qualquer maneira, um melhor acerto de carro – que eles tentaram no Bahrain – não me parece suficiente para tirar o gap em relação à Ferrari.

A Red Bull simplesmente já “desistiu” do carro atual e radicalizou prometendo um novo para Barcelona, onde também deve estrear um novo ERS na unidade de potência da Renault, juntamente com melhorias no MGU-K e MGH-H. Será o suficiente para colocar a equipe dos energéticos na briga? Difícil prever, mas os treinos livres da sexta-feira nos darão uma ideia.

E a Williams? Bem, o Bahrain é uma das melhores pistas de Felipe Massa. O brasileiro sempre guiou muito bem lá, “tem a mão” da pista como dizemos no jargão do automobilismo. Mesmo assim Felipe chegou 54 segundos atrás de Vettel e 16 atrás de Ricciardo. Isso é um forte indicativo que a Williams não saiu do lugar desde os testes de pré-temporada, A sorte deles é que as equipes que estavam atrás continuam atrás. Só não sabemos até quando…

Fernando Alonso na Indy 500
Recebi perguntas sobre o Alonso participar da Indy 500 neste ano e com isso perder o GP de Monaco. Todo mundo ganha com isso, principalmente a Indy, que vai ter um dos melhores pilotos do mundo como a cereja do bolo na corrida. Para a McLaren também é um belo marketing e uma maneira de amansar o espanhol, que deve estar extremamente frustrado com mais um ano guiando uma carroça na F1. Para nós espectadores a notícia não poderia ser melhor!

Mas, e para o Alonso? O que me preocupa – e muito – é fator risco. Alonso não vai para as 500 Milhas para participar, ele quer ganhar. E para ganhar ele precisará se adaptar a um super oval extremamente traiçoeiro, ainda mais para um piloto de F1 acostumado a fazer muitas correções no volante.

Em Indy, se você não quiser contar apenas com a sorte para vencer, é necessário um acerto de carro que permita o piloto fazer a volta inteira de pé cravado, tanto na classificação, quanto na corrida quando tem pista livre à frente. O volante não pode mexer, ou seja, o acerto tem que atender à velocidades espantosas sem precisar de correções. Uma pequena escapada de traseira na entrada ou no meio de alguma de suas quatro curvas não pode ser corrigida com um contra-esterço, pois isso leva o carro ao muro, geralmente de frente. E os pilotos de F1 estão super acostumados a corrigir a escapada de traseira contra-esterçando o volante.

Essa foi a causa do acidente de Nelson Piquet em 7 de maio de 1992 que encerrou sua carreira. Uma peça voou do carro na entrada da curva, a traseira escapou e Nelson deu de frente no muro. Essa, a escapada de traseira por qualquer razão – e existem muitas – foi a causa de vários outros acidentes fatais no lendário oval.

Mas isso não é tudo. Passando incólume pela classificação, Alonso vai encontrar durante a corrida uma série de fatores que impedem os pilotos de fazerem a pista toda de pé cravado, e só a experiência em ovais permite que o piloto conheça todos esses fatores. O carro muda durante as mais de 3 horas de prova, a pista muda, o vácuo e a turbulência dos carros à frente corta o ar de diferentes maneiras de quem vem atrás. Uma volta em Indy quase nunca é igual a outra e Alonso só vai descobrir tudo isso durante a corrida, uma vez que sua experiência de corrida em qualquer oval é zero.

É lógico que Alonso sabe de todos esses riscos, mas sua auto-confiança, coragem e costume de como guiar um monoposto em circuitos mistos podem e vão jogar contra ele em Indy, assim como jogaram contra Piquet.

A única e talvez a grande diferença de Alonso para Piquet é que o espanhol é um dos poucos pilotos de F1 que gosta de carros dianteiros, que é exatamente o que a pista de Indianapolis requer. Uma pequena escapada de frente é razoavelmente “fácil” de ser corrigida com uma pequena tirada de pé.

Boa sorte a Alonso. Ele vai precisar…

Adauto Silva
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