F1, num papo de botequim

Jean-Pierre Beltoise Monaco 1972

Colaboração: Antonio Carlos Mello Cesar

Na conversa fiada dos bares, um tema corrente, futebol, e a quase inevitável discussão, jogadores do passado versus craques atuais. Tais questões, cujo calor varia consoante quantidade de garrafas vazias sobre a mesa, carrega doses nostálgicas, apego clubístico, algumas verdades e mentiras. Pena não haver, nos botecos, muitos fãs de automobilismo, pois seria absolutamente delicioso, entre um chope e outro, debater F1, pilotos ou uma corrida inesquecível.

A intrincada manipulação de botões no volante e sua interferência direta na reação do carro exerce grande apreço nos cultores da tecnologia, considerando este, um grande desafio para pilotos da era moderna. Todavia o domínio de metodologia tão complexa vem da prática em simuladores, bastante fiéis ao comportamento de um F1 na pista.

Ao término das corridas, são inseridos nessa máquina dados simulando ocorrências registradas no decorrer da prova, condição do asfalto, temperatura, vento etc.. Chega, então, a hora dos garotos apadrinhados pelas equipes, como Caio Collet, o filho de Schumacher, o neto do Emerson, divertirem-se no game futurista. Pilotos titulares também usam este recurso.

Não obstante a passagem do tempo, mais de duas décadas, eu ainda lembro a manchete do dia seguinte: “Pista molhada, ele vai dar uma aula”. Naturalmente estou falando de Donington Park 1993, de Senna, da McLaren impulsionada pelo fraco motor Ford, humilhando a poderosa Williams dirigida por um professor (apelido de Prost), morrendo de medo da chuva. Muitos consideram a primeira volta daquele GP, como a mais brilhante da história.

Outro ciclo, outra vida, romantismo, inocência, estavam sendo perdidos, contudo talento ainda contava. Modo distinto, anotamos hoje pós-corrida, palavras estranhas e decisivas nas derrotas ou vitórias: Graining, o macarrãozinho, já enganou engenheiros; undercut, overcut, ambos dizem respeito a táticas adotadas no transcorrer da prova; stint pode ser longo, curto. Ocorrências de exclusiva manipulação do estafe técnico.

Apesar de fervorosa admiração pelo Senna, retrato aqui, a mais impressionante conquista embaixo d’água. Para tanto é preciso retroceder 47 anos, aterrar nas ruas encharcadas do principado, no tradicional GP de Mônaco, rememorar Jean-Pierre Beltoise e a única, porém magnífica vitória da carreira.

14 de Maio 1972… Pronto para largada, Jean-Pierre bafejado pela instabilidade climática nas práticas classificatórias ocupa a quarta posição, sítio improvável para um BRM, talvez quinta ou sexta força entre as equipes. Ao lado uma Ferrari, Clay Regazzoni, no segundo posto outra Ferrari, Ickx, na pole o Lotus negro, Fittipaldi, não há sinal que a forte chuva irá oferecer descanso. No fim do pelotão a bandeira verde é acionada, o barulho infernal dos motores V8 aspirados estremece as tribunas.

Beltoise parte categórico, na freada para Saint Devote assume a ponta, sua tocada é feroz, segue desafiando o piso escorregadio, chicane, muros, de forma tão intensa que pouco antes da metade da prova tem uma volta sobre o quinto colocado.

Recebendo os louros pela merecida vitória, o francês havia deixado marcas impressionantes nas ruas de Monte Carlo:

Melhor volta, 1m40seg. – 38 segundos a diferença para o segundo colocado, Ickx, especialista no molhado. – 01 volta sobre o terceiro, Emerson Fittipaldi, campeão de 1972. – 02 voltas em cima de Jackie Stewart, quarto colocado, que no ano posterior, 1973, seria recordista de vitórias na F1(27). – Helmut Marko, o atual chefão da Red Bull, seu companheiro na BRM, amargou uma desvantagem de 03 voltas. – o outro Lotus dirigido por Dave Walker, 05 voltas. – um campeão mundial Denny Hulme com McLaren, 06 voltas. – o último, José Carlos Pace estava 08 voltas atrás.

A presente e enigmática F1 beneficia sobre maneira o carro soberano, tornando inverosímel qualquer talento sobrepujar a tecnologia. Tendo como referência o relato acima, fazendo-se uma diligência imaginativa, alguém seria capaz de supor que Sergio Perez com a Racing Point, em qualquer pista, chovendo ou não, terminaria em primeiro, um giro sobre Hamilton, dois no Vettel, seis numa McLaren. Nos anos setenta surpresas aconteciam.

Kubica, sem um dos braços, foi em média meio segundo mais lento, nas tomadas de tempo, frente o jovem promissor Russell. Mesma condição física, dirigindo uma Williams 1983, o polonês daria ao menos uma volta na pista? Moroso, mas provável. Manteria meio segundo abaixo de Keke Rosberg, à época piloto da equipe? Somente em hipotético devaneio.

Quando digo que a pilotagem está nivelada, ninguém acredita.

Bem, fazendo jus ao título, F1- num papo de botequim, vou pedir a saideira, pagar a conta e despedir dos amigos.

Antonio Carlos Mello Cesar
São Paulo – SP

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