F1 – Entrevista exclusiva com Pierre Dupasquier 26/09/05

Pierre Dupasquier

Nesta quinta-feira o site Autoracing, através de seu editor chefe Adauto Silva, teve a oportunidade de fazer uma entrevista exclusiva com o diretor mundial de competições da Michelin, Monsieur Pierre Dupasquier.

Dupasquier, que está na Michelin desde 1962, começou na Formula 1 em 1973 e por lá ficou por uma década, até assumir em 85 a vice-presidência de engenharia de produtos da Michelin nos EUA. Voltou em 90 para assumir a diretoria mundial de competições, posição que ocupa até hoje.

Extremamente simpático, Dupasquier respondeu todas as perguntas em inglês – carregado de um charmoso sotaque francês – com bastante entusiasmo.

Autoracing: Pierre, você disse agora a pouco, na entrevista coletiva, que o Max Mosley simplesmente não quis nem conversar para tentar resolver aquele problema em Indianápolis. Você acha que ele tomou aquela decisão sozinho ou teve alguma influencia da Ferrari?
Pierre Dupasquier: Total influencia da Ferrari, pois era a única maneira de Michael Schumacher vencer. Já que não tinham concorrentes, eles calibraram os pneus com pressão máxima e ficaram dois segundos mais lentos por volta do que os carros de ponta que não participaram.

AR: Como vocês encararam aqueles acontecimentos?
PD: Encaramos como um problema técnico. Existem problemas técnicos todos os dias na F1. Motores quebram, aerofólios se soltam a 300 km/hora, suspensões desmontam-se sozinhas no meio da pista e etc. Nós tivemos um problema, admito, mas foi um problema pontual. Aconteceu daquela vez e acabou. Três dias depois já tínhamos um pneu que teria agüentado a corrida com tranqüilidade. Vamos ver como será em 2006…

AR: O que ajuda ter tantas equipes usando os pneus Michelin? Vocês usam a informação de uma equipe para fazer pneus para outra?
PD: Não. Como disse o Nick (Nick Shorrock, diretor mundial de F1 da Michelin) na coletiva, às vezes ter tanta informação mais atrapalha do que ajuda. Nós não fazemos pneus especiais para cada equipe, inclusive essa é a principal razão de não termos a Ferrari como parceira. Quando voltamos para a F1 nós conversamos com a Ferrari e eles queriam que fizéssemos pneus especiais para eles, mas nós não acreditamos nessa filosofia. Esse ano a Ferrari deve estar vendo como isso pode não funcionar.

AR: Então vocês levam mais em consideração o tipo de pista para construir os pneus.
PD: Exatamente. Fazemos pneus especiais para cada circuito. Costumamos fazer três tipos de pneus para cada pista e as equipes escolhem um deles. Às vezes duas ou três equipes escolhem o mesmo, mas os pneus se comportam de forma diferente em cada carro. Pode funcionar muito bem para uma equipe e nem tanto para outra.

AR: A Bridgestone costumava ter pneus de chuva melhores. O que é mais importante nos pneus de chuva, o composto ou a construção?
PD: Os pneus de chuva deles eram melhores no início. Agora acho que não. O mais importante é tirar a água do pneu para que a borracha fique em contato permanente com o solo. Depois sim, o composto é importante.

AR: Precisamos de uma corrida na chuva pra ver quem está melhor agora…
PD: É verdade. Esse ano até agora não tivemos.

AR: A FIA tem falado muito em contenção de custos. A F1 é cara para a Michelin?
PD: Não vemos nossos gastos como custos, mas sim como investimento que retorna em forma de marketing. Não estamos na F1 para ganhar dinheiro, mas também não estaríamos se custasse alguma coisa para nós. Procuramos a excelência técnica e por isso queremos a competição com no mínimo mais um concorrente.

AR: Os avanços que vocês adquirem na F1 são passados para os pneus de rua ou são coisas muito diferentes?
PD: Eu seria estúpido se dissesse que sim. São coisas muito diferentes. O que ajuda a Michelin é o conhecimento geral que se adquire no dia a dia da competição. Buscamos a excelência em cada detalhe, em cada material, em cada processo e isso amplia nossos horizontes e acaba nos fazendo melhores.

AR: Vocês costumam falar com os pilotos sobre os tipos de pneus?
PD: Não, falamos somente com os engenheiros e com os donos das equipes.

AR: Algum piloto se mostra mais interessado no aspecto técnico dos pneus do que outros?
PD: Infelizmente não. Eles estão mais preocupados em guiar o carro, pois muitos fazem só isso desde a infância. Michael (Schumacher), no início da carreira se interessava um pouco.

AR: Quem você considera os três melhores pilotos desta temporada?
PD: Alonso, Raikkonen e Schumacher, nessa ordem. Eles estão fazendo um grande trabalho considerando o equipamento que cada um tem.

AR: Agora uma pergunta fácil: Quem é o melhor piloto de todos os tempos?
PD: (risos gerais) Impossível dizer (cinco segundos de silêncio). Ayrton (Senna) era único, especial. Estava num outro mundo e você tinha que entender isso quando conversava com ele. Ao mesmo tempo em que ele era extremamente chato e minucioso com todo e qualquer detalhe – levando todos os técnicos à loucura – ele podia pegar um carro claramente inferior e vencer.

AR: Você trabalhou com Piquet também.
PD: Piquet era ótimo, um grande cara. Uma pessoa que estava acima do stress. Gosto muito dele. Um grande piloto que fazia brincadeiras sem parar com todo mundo. Uma vez vimos as calças dele penduradas num mastro muito alto junto a uma bandeira de um certo país… foi muito engraçado.

AR: Chegou a conhecer o Emerson Fittipaldi?
PD: Lógico! E o irmão dele também. Uma pena aquela aventura da Copersucar, que certamente o privou de muito mais glórias.

Adauto Silva
adauto@autoracing.com.br

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