F1 – Dez anos, e contando

Rubens Barrichello vence em Monza 2009

Por: Bruno Aleixo

Na última semana, mais precisamente no dia 13 de setembro, foram completados 10 anos da última vitória brasileira na Fórmula 1. A honra coube a Rubens Barrichello que, pilotando o fabuloso Brawn BGP 001 – Mercedes Benz, cruzou a linha de chegada em Monza, na Itália, para marcar a 101ª vitória do Brasil na categoria. Seria, embora não soubéssemos, a última antes de um longo jejum.

Jejum esse que está longe de acabar. Afinal de contas, o Brasil não conta com nenhum representante no grid da F1 desde o final de 2017. E não há qualquer perspectiva para que isso ocorra. E, ainda que Sérgio Sette Câmara ou Pietro Fittipaldi, os dois mais próximos da F1, consigam algum assento em um ou dois anos, dificilmente estarão em condições de vencer uma prova.

Assim, cabe a pergunta: o que aconteceu com o Brasil que, nos anos 70, 80 e 90, despontou como uma potência do esporte, acumulando 8 títulos mundiais e mais de cem vitórias no total? Bem, eu vejo a questão sob dois prismas.

Um deles, é o mais óbvio: a Fórmula 1 e o automobilismo em geral perderam o grande público depois da morte de Ayrton Senna, em 1994. Aquele acidente gerou uma enorme ruptura: no início dos anos 90, além de contar com Senna em grande forma, o Brasil ainda via um sem número de jovens despontando em categorias de base, todos aptos a substituir o brasileiro, assim que este parasse de correr. Isso sem contar o fato de que o próprio Senna, na época o melhor piloto em atividade, assinara com a melhor equipe (a Williams) e a expectativa geral era de que o brasileiro, em pelo menos dois anos, chegasse ao tão sonhado recorde de cinco títulos mundiais.

Bem, o acidente na Tamburello interrompeu o processo. De uma corrida para a outra (literalmente) o Brasil deixou a primeira fila da F1 para amargar posições intermediárias, algo que toda uma geração de espectadores de corridas não estava acostumada. O desinteresse foi aumentando a cada prova, a base foi sendo esvaziada e, em pouco tempo, não se tinha mais categorias de fórmulas correndo no país. Na minha visão, a chegada de Rubens Barrichello e, posteriormente, de Felipe Massa à Ferrari ainda contribuíram para a diminuição do interesse, graças ao papel de segundo piloto ao qual os dois foram relegados.

O segundo prisma vai ao encontro do próprio automobilismo em si. Afinal de contas, a morte de Senna ocorreu há 25 anos, e toda uma geração que nasceu depois disso, e sequer viveu o auge do Brasil na F1, poderia estar se interessando pelo esporte hoje. Esse, a meu ver, é o maior problema: será que os jovens hoje em dia gostam de corridas de carro? A indústria automobilística vem enfrentando vários desafios para manter seus números de venda em patamares mais altos, justamente porque a nova geração se interessa muito menos pelos automóveis. De fato, a posse de um carro vem sendo trocada, facilmente, por aplicativos de transporte e, quando muito, por aluguéis ocasionais.

Mesmo em campeonatos de kart amador, que ainda sobrevivem espalhados pelo país, é difícil ver pilotos com idades abaixo dos 20 anos. Em geral, essas competições são disputadas por abnegados, como eu e você, que ainda temos aquilo que ficou conhecido como “gasolina na veia”. O interesse dos jovens migrou para outros esportes (até mesmo vídeo game virou esporte) e é difícil imaginar que um garoto de 15 anos tenha paciência para ficar sentado na frente da TV, por quase 2 horas, assistindo a uma corrida de carros.

Ainda assim, a grande vilã da história toda é mesmo a CBA e sua completa incapacidade de criar eventos que possam, minimamente, trazer alguns jovens para a disputa. Por que não, por exemplo, aproveitar a onda dos e-sports para tentar atrair alguns participantes dos campeonatos virtuais para as pistas, criando uma categoria de monopostos de baixo custo e de fácil pilotagem? Ou então, que tal levar olheiros para os campeonatos de kart amador, para tentar pescar um ou outro jovem que, por acaso, resolva correr por ali incentivados pelos pais? Eu mesmo conheço alguns pilotos amadores que tentaram levar os filhos para as pistas, mas acabaram desistindo ao perceber que não há qualquer perspectiva de apoio por parte da Confederação Brasileira para que as crianças tenham um caminho a percorrer. Ou seja: ou o pai descarrega um caminhão de dinheiro, ou nada feito.

Enfim, o automobilismo não é como o futebol ou o vôlei que, automaticamente, acabam levando jovens a praticá-los pelos benefícios à saúde, pelo lazer ou mesmo pela integração com os colegas. As corridas viraram um pequeno nicho que, para despertar interesse, precisam de trabalho daqueles que por elas são responsáveis. Ninguém mais vai se interessar por automobilismo apenas por assistir F1 nas manhãs da Globo.

Que todos os envolvidos tenham consciência de seus papéis. Caso contrário, as 101 vitórias brasileiras na F1 serão as definitivas, mesmo.

Bruno Aleixo
São Paulo – SP

AS - www.autoracing.com.br

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