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Tony Kanaan |
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Campeão das pistas e
do bom-humor
Essa é a primeira entrevista feita pelo colaborador Rafael
Ligeiro para o Autoracing. E certamente não haveria
piloto melhor para ser entrevistado nesse debut que Tony Kanaan.
Além de esbanjar carisma e humor pelas pistas ianques, aos 30
anos, o atual campeão da IRL é um dos principais representantes
do Brasil no automobilismo internacional. Confira uma superentrevista
feita com Tony após as 300 Milhas do Kansas.
Tony, qual é o balanço que você faz de sua participação na
atual temporada da IRL?
Tony Kanaan: Faltava vencer, mas conseguimos uma vitória maravilhosa
em Kansas. Nós tivemos pelo menos quatro chances de vencer e infelizmente
não concluímos. Porém, a vitória no Kansas nos coloca numa ótima
posição pois ainda faltam nove etapas e têm muita coisa para acontecer.
O importante é que ainda estou na vice-liderança e buscando encostar
no Dan (Wheldon).
Em termos de resultado, o que vem diferenciando o Tony Kanaan
de 2004 para o de 2005? Você acredita que adversários como o Dan
Wheldon vieram mais preparados para combater o Tony nesse ano?
Não mudou nada, principalmente, a disposição e a vontade de conquistar
o bicampeonato. O Dan é um ótimo piloto e essa competitividade
só mostra o equilíbrio da categoria. Realmente nós mostramos a
receita no ano passado e o Dan e outros pilotos aprenderam rápido
(risos). Porém, engana-se quem pensa que “desaprendi". Pode ter
certeza que vou dar muito trabalho ainda.
No ano passado, a IRL trocou motores de 3,5 para 3 litros.
Essa mudança resultou em alguma alteração no comportamento dos
monopostos?
Com certeza a mudança foi fundamental para a segurança e competitividade
entre as equipes. O carro tem uma retomada de aceleração um pouco
menor do que os com 3.5 litros, mas continua com grande potência.
Aliás, nas últimas três corridas a categoria teve as três montadoras
vencendo cada uma delas. Isso é uma prova que as mudanças foram
super acertadas.
Em suas temporadas na Champ Car você chegou a ter um companheiro
de equipe. Em alguns anos, correu sozinho pelo time. Como foi
para você, de repente, se ver em uma equipe com quatro carros
na IRL?
Fantástico! Qualquer piloto gostaria de ter uma equipe que tenho
hoje, onde somos muito unidos fora da pista. Eu recebo informações
de três caras super competentes e que não estão ali por acaso.
Talvez esse seja o diferencial da Andretti Green desde o seu ano
de estréia, em 2003.
Na Andretti-Green é evidente que as estruturas são individualizadas
por piloto. Apesar disso, vocês dividem dados de pista e comentam
sobre ajustes.
Como eu disse antes, estamos sempre conversando após um treino,
uma classificação e até mesmo após as corridas. Apesar de cada
um de nós ter um time, nós somos uma só equipe e tenho certeza
que este é o pensamento de todos. Para você ter uma idéia, na
sede da equipe, em Indianápolis, os quatro times trabalham num
mesmo espaço, sem divisória alguma.
A Andretti-Green é conhecida pelo clima cordial que há entre
os pilotos. Como é que o Michael Andretti faz para ‘domar’ pilotos
tão competitivos? Nunca pintou um mal-estar fora das pistas?
Acima de toda amizade, nós somos profissionais e todos nós corremos
para vencer. Lógico que se tiver a oportunidade de passar um companheiro
eu vou fazer e vice-versa. No entanto, há como disputar uma posição
e ser limpo, certamente isso sempre acontece entre nós. É ilusão
achar que nunca terá um toque, um erro ou algo que possa prejudicar
um companheiro, até porque são coisas naturais de corrida, mas
nos respeitamos muito e evitamos isso ao máximo. O Michael é um
dos pilotos mais experientes do automobilismo norte-americano
e sabe melhor do que ninguém o que falar e a hora certa de falar.
É um chefe que todo mundo quer ter.
Por falar em amizades, ao longo da carreira você construiu
diversas. Uma delas foi justamente com o Alessandro Zanardi. Apesar
de agora viver em ambientes diferentes, você continua mantendo
contato com o Alex?
Sempre que posso, falo com o Alex. Nossa amizade nasceu nas pistas
e hoje rompe qualquer circuito. Ele é um exemplo de perseverança
e, principalmente, de força para realizar aquilo que se ama. Ano
passado estive com ele na Europa e também fui assistir a sua primeira
corrida de carros em Monza no final de 2003. Agora, preciso dar
uma agenda para ele não esquecer mais os testes que ele tem (risos).
Espera trazê-lo para disputar as 500 Milhas da Granja Viana?
Ano passado ele não pode vir por causa de compromissos, mas espero
que este ano ele esteja na minha equipe. Será um reforço e tanto
para o time. Ainda não conversei com ele para saber a agenda dele,
até porque acho que ele não tem (riso).
O Zanardi sempre foi um dos pilotos mais engraçados no paddock
das categorias em que passou. Qual foi o episódio mais divertido
que você viveu com ele?
É impossível falar de um episódio com o Alex porque ele é impossível.
Ele adora imitar e fazer gozações com seus amigos. Me divirto
bastante quando estou com ele.
Quais são os fatores que fazem da IRL uma categoria com grande
equilíbrio?
Competitividade, qualidade e transparência. Hoje temos uma quantidade
de pilotos de ótimo nível, os principais patrocinadores, a principal
prova que é as 500 milhas de Indianápolis e a cobertura das maiores
emissoras de TV dos Estados Unidos. Portanto, é uma categoria
que se solidificou como a maior de monoposto do país.
No ano passado, você liderou o campeonato praticamente de
ponta-a-ponta. Nesse ano, você está atrás do Dan Wheldon na luta
pelo título. Como é mudar a condição de ‘caça’ para ‘caçador’?
É mais um desafio que tenho na carreira. Eu corro porque amo o
automobilismo e amo quebrar os limites. Se no ano passado nós
quebramos todos os recordes, este ano eu quero derrubar todas
as estatísticas e estar disputando o título nas duas últimas etapas.
São sensações que sempre fizeram parte da minha carreira e adoro
isso.
Na sua primeira temporada completa na IRL, em 2003, tivemos
um campeonato com diversos acidentes, como do Kenny Brack, no
Texas. De que maneira as medidas da IRL refletiram no rendimento
dos carros? Atualmente, você se sente mais seguro que nas temporadas
passadas?
Totalmente. Acidentes de corridas acontecem e vão acontecer sempre.
O importante são as medidas de precaução que são tomadas e, neste
ponto, a IRL está muito bem. Desde a diminuição da capacidade
dos motores até a instalação dos amortecedores nas curvas (“safe
barriers”), são ações que proporcionaram uma segurança maior aos
pilotos. Hoje, nós não batemos mais no muro, e sim, num sistema
que amortece cerca de 80% o impacto. Para uma categoria que corre
a 350km/h de média, isso é fundamental.
Você, infelizmente, já perdeu companheiros de profissão em
corridas, como o Greg Moore, nas 500 Milhas de Fontana, em 1999.
Como fica o lado emocional e a concentração do piloto ao receber
pelo rádio a notícia de que um companheiro sofreu um grave acidente?
Os riscos você nunca pensa enquanto você é piloto, você sabe que
pode acontecer, porém se você pensar nisso é o momento certo de
parar. E como em qualquer esporte que envolve risco, o medo não
pode estar presente nessas horas, pois com certeza colocaria em
risco a sua habilidade de fazer o trabalho com perfeição.
Deixando bem de lado os momentos tristes, vamos falar sobre
algo muito bom: seu teste pela equipe BAR de Fórmula-1. Já há
uma data definida? O que você espera encontrar em termos de equipamento
e bastidores nessa sessão?
Ainda não temos data definida, mas deve acontecer em breve. Eu
quero muito realizar este sonho de criança e realmente espero
que se concretize. Certamente vou encontrar carros com uma tecnologia
avançada e uma equipe bastante trabalhadora, isso porque convivo
com a Honda desde 1998 e sei que eles são extremamente competentes.
É uma família que eles formam. (A data do teste foi confirmada
pouco após a entrevista: acontecerá em 29 de setembro, no circuito
de Jerez dela Frontera)
Como está a repercussão, no paddock da IRL, sobre o Grande
Prêmio dos Estados Unidos de Fórmula-1?
Com certeza foi muito negativa principalmente por se tratar de
um país onde a Fórmula-1 ainda estava conquistando seu espaço,
ao contrário da Nascar e IRL. Acredito que eles tinham umas 30
escolhas e com certeza essa (realização da corrida com apenas
seis carros, calçados por pneus Bridgestone) foi a pior delas.
Será bem difícil recuperar o espaço deles aqui nos Estados Unidos.
Lamentavelmente seu amigo Cristiano da Matta não se deu bem
ao trocar o automobilismo norte-americano pela F-1. O que você
pensa sobre a ”imigração” da IRL para a F-1? Vale a pena sair
de uma equipe forte nos Estados Unidos para ingressar em uma equipe
promissora na categoria da FIA – Tony Kanaan tem contrato com
a Andretti-Green até 2008?
Eu sempre digo que no automobilismo a gente deve evitar dizer
nunca, mas, no meu caso, é improvável a mudança. Eu tenho contrato
com a Andretti Green até 2008, patrocinadores que estão apoiando
e investindo em mim e tenho uma carreira concretizada aqui na
América. Porém, se houver interesse, é uma conversa com o Sr.
Michael Andretti e não comigo.
Sabemos que você gosta como poucos de bicicletas, inclusive
chegando a fazer apostas com o Cristiano valendo uma “magrela”.
Agora que ele voltou à Champ Car, a disputa continua?
Na verdade esse negócio da bicicleta era em relação a quem ganhasse
uma corrida na CART (o vencedor de uma prova da categoria premiaria
o oponente com uma bicicleta) e como ele ganhou várias (corridas;
sete em 2002) ganhei várias bicicletas. Agora não temos mais apostas,
só torcemos muito um para o outro.
Enfim, pode ficar a vontade para mandar uma mensagem à sua
imensa legião de fãs e leitores do Autoracing.
Pessoal, podem ter certeza que vou soltar a bota e acelerar para
diminuir a vantagem do Dan. Espero que estejam gostando da categoria
e das emocionantes disputas. Conto com a torcida de vocês pelo
o bi-campeonato. Grande abraço.
Rafael Ligeiro, 19/07/2005
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