Entrevista com Juan Pablo Montoya

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Juan Pablo Montoya - 2014

O jornalista Marurice Hamilton da revista inglesa F1 Racing fez uma longa entrevista com um dos pilotos mais rápidos e carismáticos que já passaram pela F1, que a revista Autosport publicou hoje em sua página online.

O Autoracing traduziu e publica aqui para os leitores de língua portuguesa:

Poucos pilotos explodiram na Fórmula 1 com um estrondo tão grande como Juan Pablo Montoya fez em 2001. Aqui, ele compartilha os destaques de sua breve, ousada, mas brilhante carreira em uma entrevista com bastante profundidade.

Maurice Hamilton: É bom vê-lo novamente – especialmente aqui em Monza. Este lugar deve manter boas lembranças para você, já que você ganhou duas vezes aqui, além de outros feitos.

Juan Pablo Montoya: Sim, eu suponho que sim. Eu não sou realmente o que você chamaria de um cara que olha a história, mas eu vejo isso em outras pessoas. Um amigo meu italiano é muito apaixonada por história. Quando eu disse que estava vindo aqui para ajudar com os caras da GP2, ele ficou todo animado por causa do que você está dizendo – porque é Monza.

É a mesma coisa quando eu vou para Indianapolis. Eles dizem: “Oh meu Deus, você ganhou aqui! Você é um campeão da Indy 500!” É enorme. Então, sim, é bom. Eu vi um monte de caras. Eu vi [Sir] Frank [Williams], por exemplo e foi emocionante. Foi bom ver Ron [Dennis] também.

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Montoya bate o recorde de volta mais rápida da história da F1 em Monza 2004

MH: É mesmo?

JPM: Sim, foi! Muito, muito bom. Vi Ron quando ele foi para uma corrida da NASCAR, porque a McLaren estava fazendo a ECU para a NASCAR. Ele foi muito legal lá e tem sido o mesmo aqui. Também foi bom ver a Claire Williams. E vi um monte de mecânicos porque eles se movem de equipe em equipe, mas ainda estão por aqui.

MH: A Claire foi sua assessora de imprensa quando você estava correndo pela Williams.

JPM: Sim, ela foi. Estou impressionado com a Williams. Eles fizeram um trabalho muito bom.

MH: Interessante você dizer isso, porque você vai notar a diferença.

JPM: Olha, fazer as coisas direito é muito difícil; fazer merda é muito fácil. Há uma centena de maneiras de fazer isso errado e cinco maneiras de fazer isso direito.

Uma vez que você começar a ir ladeira abaixo, a coisa mais difícil é parar de descer. Na América dizemos: “Como você para o sangramento?” Quando você consegue, está tudo bem, porque uma vez que você começa a reverter as coisas na direção certa a atmosfera muda; as pessoas começam a ficar animadas.

Mas quando você está projetando o carro ou trabalhando no túnel de vento ou na construção de um carro e nada funciona, isso só desmotiva e tudo fica um inferno para as pessoas.

Isso se aplica a todos. As pessoas falam apenas sobre o piloto, mas a paixão é a mesma para toda a equipe – e eu quero dizer automobilismo em geral, e não apenas F1. Não é um trabalho de rotina, porque há todo o tempo para lidar com isso; É duro.

Mas quando as coisas vão bem, as pessoas que trabalham na suspensão dianteira ou o que quer que seja, todos ficam animados como o cara dirigindo o carro – mesmo que ele receba todo o crédito. Quando você ganha, é você; quando você perde, é o carro.

Uma das coisas mais difíceis de automobilismo é aprender a ganhar e perder juntos como uma equipe. Quando você consegue isso, é um grande passo em frente.

MH: Você sentiu isso desde os primeiros dias, digamos, na Formula 3?

JPM: Para ser honesto, não. Você tem que tirar tudo do carro, e é isso. Eu sempre achei que fiz um bom trabalho em descobrir o que eu queria de um carro e como conseguir isso.

Uma das maiores lições que tive na vida foi com Jackie Stewart dirigindo em Oulton Park. Ele mudou a minha carreira.

MH: É mesmo? Foi num carro de turismo?

JPM: Sim, um Ford Escort Cosworth. Ele levou seis de nós – pessoas como Allan McNish, Ralph Firman, Jonny Kane – e nós dirigimos os carros na pista de Oulton Park. Jackie saiu e foi sete décimos mais rápido do que qualquer um. Foi impressionante.

Então, foi a minha vez de entrar no carro com ele. Após algumas voltas, ele disse: “OK, deixe-me mostrar-lhe.” E parecia ele estava dirigindo a cinco quilômetros por hora, então viemos para os boxes. Meu pai estava lá e disse: “Essa foi a volta mais rápida” E eu: “Que merda você está falando? Ele estava dirigindo a cinco quilômetros por hora?!” Foi inacreditável.

Então eu fui de novo. Estávamos naquela curva dupla à direita [Druids],a traseira escapando e eu pensando: ‘Eu não vou bater com Jackie Stewart ao meu lado’ Foi uma enorme escapada e eu consegui salvar.

Eu pensei que estava em apuros. Mas ele apenas disse: “Muito bom controle do carro. Acalme-se, faça mais devagar e suave. Você não quer o carro balançando assim…” Ele era tão bom e realmente aquilo me marcou. Foi um grande toque de despertar.

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Jackie Stewart e Montoya em Donington Park - 1994

MH: Então, como você responde ao fato de que as pessoas dizem que você é muito agressivo ao volante?

JPM: Sim, as pessoas dizem isso, mas eu não acho que eu seja. Eu costumava ser. Eu sinto que sempre tentei maximizar tudo nas curvas, e isso pode parecer agressivo. Mas, se você olhar os vídeos onboard, minhas mãos não ficam fazendo correções o tempo todo.

MH: Eu tive uma experiência interessante com Jackie em Donington Park, quando estavam lançando Ford Sierra 4×4 no final de 1980. Eu estava dirigindo e há uma longa curva à esquerda na parte inferior do circuito. Eu não conseguia fazê-la direito.

Então Jackie me disse na volta seguinte quando chegarmos à curva para manter o pé no acelerador e soltar mais o volante. Eu fiz com muito mais gentileza nos movimentos das mãos e consegui a linha perfeita – a cerca de 150 kph.

Eu não podia acreditar. Eu estava amedrontado. Foi suave como seda, enquanto antes tinha sido um sufoco.

JPM: Ele fala muito sobre a importância de equilibrar o carro, não é?

MH: Isso mesmo . Voltando a este negócio de agressividade, eu acho que sei onde você está querendo chegar, porque às vezes você pareceu agressivo. Estou pensando na F3000 em Mônaco, 1998. Você estava vindo de trás do grid e logo que você chegava alguém, era muito claro que você estava indo para ultrapassar. E você ultrapassava. Você parecia agressivo. Isso é o que podemos ver do lado de fora.

JPM: Sim, mas por dentro é realmente com muito calma. Uma coisa que eu aprendi a falar com o meu engenheiro é sobre a linha tênue entre ser muito suave e andar muito devagar.

Você tem que ter cuidado para não ser suave demais. Você precisa se tornar mais inteligente, mais esperto, mas nem sempre significa mais rápido. Eu sou muito consciente disso.

Especialmente na NASCAR; você tem que recuar e dar o que eu chamo de “tempo para o carro”. Na IndyCar você tem que apressar isso. Então, eu tive que voltar a ser mais “apressado” este ano. Mas há uma maneira de ser apressado e andar rápido e uma outra que queima mais combustível e detona os pneus e não te leva a lugar nenhum. Você tem de sentir isso: é uma linha tênue.

MH: Você pareceu “apressado” quando assumiu a liderança de Michael Schumacher na freada do S do Senna em sua terceira corrida na F1 no GP do Brasil em 2001. Aquele foi um grande, grande momento, por muitas razões.

JPM: Era uma relargada – e eu era muito bom em relargadas. Eu sabia que tinha um pouco mais de velocidade máxima [na Williams-BMW]. Chegando na reta, eu estava pensando: ‘Se ele frear cedo eu vou pra cima dele”. Estavamos freando na placa de 150 metros. Ele freou em 170 metros e eu fiu pra cima.

MH: Depois você foi atingido por trás por Jos Verstappen. Você poderia ter vencido.

JPM: Você diz isso, mas vocês são jornalistas. Você olha e diz: “Ele poderia ter vencido”. Mas pode ser que não, estava chovendo. Os pneus de chuva da Michelin eram terríveis naquela época porque a Michelin estavam apenas começando.

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Montoya ultrapassa Schumacher no GP do Brasil em 2001

Talvez tenha sido uma oportunidade perdida, mas eu nunca fico muito animado sobre essas coisas. Jackie me disse que você não quer ficar mais animado sobre as coisas, porque se você ficar e não der certo, você fica deprimido.

Se você esperar ganhar e acabar tendo um fim de semana de merda, você mentalmente destrói a si mesmo. Se você controlar suas expectativas e fizer seu melhor, então você fica mais feliz. Alguns dos caras com quem trabalho dizem que quando estou muito pentelho, eles sabem que nós vamos correr muito, muito bem.

MH: Você acha que este é um problema que talvez Lewis Hamilton teve? Porque as suas emoções parecem bastante extremas às vezes?

JPM: Ele tem muita pressão da mídia britânica. Quer dizer, o cara dá um arroto e a história explode ao mesmo tempo na Inglaterra. E isso está ajudando Rosberg.

Toda essa merda sobre Rosberg ter batido de propósito em Spa. De jeito nenhum ele fez aquilo de propósito! Você sabe que há apenas cerca de 20% de você conseguir furar o pneu do cara, mas uma chance de 80% que você vai quebrar sua asa dianteira. Ele apenas calculou mal.

Lewis é um grande cara, um grande piloto. Ele tem muito talento, mas você tem que ter cuidado. Muitas vezes, quando você usa muito sua boca, ela te morde de volta. Já aconteceu comigo e acontece com todo mundo. Você fica melhor deixando a sua tocada falar por você.

MH: Você conseguiu sua primeira vitória aqui em Monza, em 2001. Como você se sente sobre isso? Trabalho feito e seguir em frente? Ou foi algo muito especial?

JPM: Foi bom, mas foi mais como: ‘Já estava na hora’! Eu tive pódios e houve algumas vezes que eu deveria ter ganhado, como na Alemanha, onde eu tinha 30 segundos de vantagem e não colocaram o combustível no carro. Mas então você tem casos como na Espanha, onde eu estava em quarto lugar, uma volta atrás de Mika Hakkinen – e ele quebrou na última volta. Oh wow, primeiro pódio! Obrigado, aceito isso.

MH: Voltando ao Jackie Stewart; ele gosta de compartimentar as emoções…

JPM: Você tem que fazer isso.

MH: Então, como você lidou com 2002 quando você não teve vitórias?

JPM: Eu tinha toneladas de pódios [sete] e cinco poles consecutivas. Foi frustrante, mas chega a um ponto onde você aprende a lidar com isso.

O que eu estou dizendo é que, se eu contar a um jovem todas as histórias sobre as coisas que aconteceram comigo, ele pensaria: ‘Esse cara fala muita merda.’ Eu pensei isso sobre Jackie quando ele me contou tudo. Você precisa deixar os caras jovens terem estas experiências e descobrir as coisas por si mesmos.

Isso é o que eu estava passando e isso faz de você uma pessoa melhor; um piloto melhor. Você começa a entender um monte de coisas. Quando você está na F1 como um jovem piloto, você nunca olha para o quadro completo.

MH: Porque você está muito concentrado?

JPM: Sim, mas você se concentra nas coisas erradas porque você é pego pelo momento. Se alguém pudesse ensiná-lo a olhar para o quadro maior, você entenderia que há momentos em que as coisas acontecem e você tem que aprender a aceitá-las.

Deveria ser obrigatório ter as pessoas correrem na NASCAR por um ano, porque eles têm pára-choques e, se você correr como um idiota eles simplesmente te tiram da frente. Lá você aprende a respeitar as pessoas contra quem você está correndo. É algo que você não aprende na Europa, mas faz as corridas ficarem muito melhor.

MH: E sobre 2003? Foi aqui em Monza que a coisa toda da Michelin explodiu. Você e a Williams estavam correndo pelo título e a Bridgestone reclamou de seus pneus [dizendo que a largura da banda de rodagem da Michelin aumentava e ficava ilegal quando o carro estava em alta velocidade]. As mudanças tiveram que ser feitas e tudo começou a dar errado.

JPM: É sempre ruim quando a política está envolvida nas corridas. Mas isso acontece. Eu posso dizer honestamente que não me arrependo de nada que fiz. Eu sinto que tenho sorte e sou abençoado por ter sido capaz de fazer tudo o que fiz. E eu sinto que há uma grande quantidade de combustível no tanque – por isso é muito legal.

MH: Quantos anos você tem agora?

JPM: 38.

MH: E você ainda tem realmente fome para correr.

JPM: Totalmente!

MH: Você já pensou que talvez você poderia ter ficado na F1 um pouco mais?

JPM: Por quê? Naquele momento [2006], eu não queria ficar na McLaren, e não havia outro lugar para ir. Pensando em minha família e tudo mais, a melhor opção era ir para a América.

E tem sido maravilhoso. Eu tenho amado tudo. A NASCAR foi difícil, mas foi uma boa experiência; Eu aprendi muito.

E a chance de estar com Roger Penske tem sido incrível. Eu o descreveria como estar com a McLaren, mas com Frank Williams no comando.

É como se você fizesse parte de uma família. É a melhor equipe em que eu estive, e estive em um monte de grandes equipes. Eu não estou dizendo isso porque é onde eu estou agora. Estar com a Penske é… impressionante.

MH: O Roger põe as mãos na massa?

JPM: Como você não iria acreditar. Na verdade, ele é o cara no pitwall do Helio Castroneves.

É incrível, ele faz uma corrida e viaja para a Alemanha para um café da manhã, almoço no Reino Unido, jantar na Espanha e, em seguida, ele vai para outra corrida. Na próxima semana ele está na Austrália.

Eu posso honestamente dizer que se você tivesse que escolher alguém como um exemplo na vida, se pode admirar alguém na vida, tem que ser o Roger.

MH: Ele é sempre assim? Ou é apenas a maneira como ele se comporta e faz as coisas?

JPM: Tudo sobre ele; tudo. Ele tem uma grande paixão por automobilismo, mas o importante é que este não é o seu negócio. E ainda o seu negócio é tratado da mesma maneira. Eu fui a algumas de suas concessionárias e elas são impecáveis; absolutamente incrível. Tudo tem que estar certo.

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Montoya e Roger Penske no GP dos EUA de 2003

MH: As coisas não deram tão certo com a Williams, em Magny-Cours em 2003, quando você pensou que eles estavam te deixando para trás com a estratégia de pitstop e você respondeu no rádio. Você recebeu uma carta formal de Frank sobre o seu desabafo. O que você acha sobre isso agora?

JPM: Era apenas paixão. Todo mundo tem um ponto de vista e eu sou muito franco. Eu disse a eles que eu pensava. É complicado. Eu preciso escrever um livro algum dia e incluir todas essas histórias. Mas eu entraria num monte de problemas se fizesse isso!

MH: Nenhum desses problemas no Brasil de 2004, quando você ganhou a sua última corrida com a Williams, batendo a McLaren de Kimi Raikkonen em uma luta direta antes de ir para a McLaren. Isso deve ter sido bom.

JPM: Sim, foi. Eu tenho o carro em casa.

MH: Mas não com aquele nariz tipo morsa?

JPM: Com um nariz novo, sim. Embora eu realmente tenha o velho nariz também.

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Montoya com Rubinho no pódio do Brasil em 2004

MH: Não é possível imaginar o que você quer fazer com aquilo! Embora a aparência não é tudo. Você teve pelo menos uma McLaren ruim. Como você olhar para trás em seus dias com a equipe de Ron?

JPM: Eles eram bons. OK, nós passamos por uma fase difícil porque no primeiro ano eu odiava o carro. Foi muito, muito difícil, mas melhoramos quando finalmente chegou a suspensão e o pacote que fez o carro agradável de guiar.

MH: Eu fiz um livro com a McLaren em seu 50º aniversário e eu conversei com pessoas como Phil Prew, que foi seu engenheiro de corrida em 2005. Ele disse que você era o piloto favorito dele, porque você era muito rápido e tinha uma sensação incrível do carro. E, devo acrescentar, porque ele achava que você era um cara legal.

Ele citou a corrida em Interlagos, em 2005. Você estava em uma estratégia diferente de Kimi. Mas você tinha que fazer cinco voltas de classificação antes de Kimi entrar.

JPM: Sim, eu me lembro. Eu perguntei como voltas mais que eu tinha que fazer daquele jeito? Cara, eu estava mesmo no limite. E eles: “Mais uma, mais uma, continue assim!” Kimi saiu bem na minha frente, mas eu o peguei na curva 4. Aquilo foi bom!

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Montoya na McLaren em 2005

Ter um relacionamento assim [com Prew] é como o que eu tenho agora com o pessoal da Penske. Eles querem ganhar tanto quanto eu, ou mais. Quando você tem alguém asdsim trabalhando ao seu lado, é emocionante.

Não se trata de quantas horas você trabalha, porque o nível de intensidade continua aumentando e aumentando. Eu sou bom em ir nos detalhes e quando as coisas acontecem é incrível. Eu adoro olhar para os problemas e perguntar como podemos melhorar. Tentamos as coisas e elas não funcionam. Então, de repente acertamos.

É uma questão de confiança trabalhar para os dois lados e com Phil era assim. Eu confio neles 100%. E se eu disser alguma coisa, eles confiam 100%. É aí que você começa a guiar para chutar o traseiro de todo mundo. Quando você tem essa unidade, é incrível. Passei muitas horas no simulador; trabalhamos sem parar.

MH: Isso me lembra que Phil também me contou a história do GP britânico em 2005, quando voou de volta para a fábrica, na noite sexta-feira, passou um tempo no simulador, voltou para Silverstone, mudou o carro com as lições aprendidas – e ganhou a corrida.

JPM: Sim, isso é um bom exemplo do que eu estou falando. Eu bati Fernando Alonso!

MH: Sim, ele estava a caminho de seu primeiro título com a Renault. Você o ultrapassou por fora na primeira curva …

JPM: Falei quer ia fazer aquilo antes da corrida.

MH: Sim, eu me lembro. Você não estava na posição de lutar pelo campeonato naquele momento e Fernando estava, então ele tinha um pouco mais a perder.

JPM: Exatamente. Eu pensei: ‘Se eu conseguir uma boa largada [da segunda linha], eu não vou recuar. É divertido quando você pode fazer isso.

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Montoya ultrapassa Alonso em Silverstone 2005

MH: Sua reputação sofreu um pouco com aquele negócio do ombro lesionado que o manteve fora de duas corridas em 2005. O ombro estava muito ruim?

JPM: Estava ruim. Foi o que foi. Eu pensei que era apenas uma dor quando voltei para a Espanha, porque eu não queria largar na parte de trás em Mônaco. É por isso que eu corri na Espanha e tivemos um fim de semana horrível.

MH: Você ainda estavam lutando.

JPM: Muito. Eu tomei injeções por um longo tempo para adormecer a dor.

MH: Foram as colisões ou as forças G, ou uma combinação de tudo?

JPM: Acho que foi tudo.

MH: Você correu contra um monte de caras realmente grandes na F1. Quem se destacou?

JPM: Michael [Schumacher] era muito bom. Durante seu tempo na Ferrari ele e o carro eram imbatíveis. Então, se você tivesse a chance de derrotá-lo, você tinha que dar 100%.

MH: E o que dizer de Ralf quando eram companheiros de equipe na Williams? Ele estava em um alto nível até então.

JPM: Ralf? Quando eu comecei, era inacreditável. Ele era duro. Nos meus primeiros testes, ele chutou tanto o meu traseiro que não era nem mesmo engraçado. Eu tirava tudo que podia e ele ia cada vez mais rápido, quatro décimos mais rápido.

Você começa a ficar mais perto, a dois décimos – então ele vai e faz com que seja difícil e coloca oito décimos de novo. Você olha para os dados e vê que ele está freando mais tarde, contornando mais rápido as curvas, como diabos ele está fazendo isso? Demora cerca de três anos na F1 para ficar realmente bom.

Não se esqueça, nós não tínhamos simuladores em 2001. Mas eu me lembro quando fomos para a China pela primeira vez em 2004, no primeiro treino eu estava mais de um segundo mais rápido do que qualquer outra pessoa. Isso foi porque eu sabia exatamente o que fazer graças ao simulador. Eu fui para a pista e freava onde tinha feito no simulador; tudo foi como esperado e foi assim. Simples.

A coisa mais difícil é que quando um carro combina com você, você vai e bate o seu companheiro de equipe, mas quando o carro não combina, você tem o seu traseiro chutado.

É uma questão de descobrir como fazer com que o carro se comporte da maneira que você quer. Quando eu comecei na Williams, o carro era mais como o Ralf queria. Isso tornou as coisas difíceis para mim, porque eles faziam o carro ficar ao gosto de Ralf. Chegou num ponto em que eu não me aproximava de Ralf porque eu não conseguia guiar o carro.

Então nós finalmente começamos a mudar o carro para o que eu queria. Em Suzuka eles mudaram a cambagem dianteira porque a parte externa dos pneus estava se desgastando muito. Eu saí de manhã para o primeiro treino e não conseguia guiar aquilo.

“Que merda vocês fizeram no carro?” Eles mudaram a cambagem de novo e ficou um carro diferente. Quando você consegue fazer o ajuste fino e se sente confortável com o carro, isso faz uma grande diferença. Quanto mais confortável você estiver, mais fácil será. É onde 80% da sua sensação vem.

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Montoya e Ralf Schumacher em Magny-Cours 2003

Quando fui para a McLaren, eu fiz uma volta de instalação e achei que algo estava quebrado no carro. A suspensão era tão dura que era difícil guiar. Passamos por um longo processo de levar o carro para onde ele precisava ir e foi aí que Phil ajudou demais. Nós trabalhamos muito bem juntos.

MH: Falando em se sentir confortável, é uma atmosfera agradável neste paddock da GP2, não é?

JPM: Sim, é incrível o quanto ele mudou de quando eu estava aqui [na F3000]. Não me lembro de tudo isso.

MH: Eu me lembro de uma história que Christian Horner uma vez nos disse. Christian diz que você terminou a carreira dele como piloto, porque, eu acho que foi em Hockenheim, onde ele disse que achava que estava indo bem – quinto ou alguma coisa – e você veio na reta principal, basicamente o ultrapassando pela grama desaparecendo na frente.

Ele viu o que você fez e percebeu que ele nunca seria capaz de competir naquele nível. Basicamente, na cabeça dele, ele desistiu naquele momento; ele disse: “Acabou, eu não consigo fazer aquilo. É tudo culpa sua!

JPM: Falando em Hockenheim, eu sempre me classifiquei mal lá. Mas era uma grande pista e na corrida eu ia muito bem. A primeira vez que estivemos lá [na F3000] estava chovendo. Eu estava na longa reta após o início e vi uma asa vindo na minha direção – realmente rápido. Então eu desviei, fui para a grama – e quando estava para fazer a primeira chicane, eu tinha passado 15 carros!

MH: Eu acho que já ouvi Frank falar sobre isso e ele teria dito: “Quem é esse Juan Pablo Montoya? Devemos dar-lhe um carro.”

JPM: Acho que foi sim. Eu sempre tirei proveito de todas as oportunidades que me foram dadas. Eu sempre tento mostrar o que posso fazer. Quando eu tive meu primeiro teste de F1 na Williams, aquele foi o melhor carro e o mais fácil que eu já tive de dirigir. Era o carro de Jacques Villeneuve de 1997. Era um carro muito sólido. Como freava – era irreal! Você colocva pneus nele e ia, ia cada vez mais rápido e a coisa nunca te mordia.

O problema era que estávamos na pista velha de Barcelona, antes de colocarem a chicane, então a último curva era à direita em descida e muito rápida. As forças G eram altas e eu não estava acostumado com isso. Você vai virar sua cabeça para a direita – e ela vai para a esquerda. Em seguida, você vai apoiar sua cabeça, mas ela vai para trás porque você está acelerando. Foi ruim. Você fica tipo: “Onde está a zebra?” O carro era incrível. Eu estava muito rápido, mas meu pescoço foi para o espaço. Eu não conseguia fazer 10 voltas no carro.

MH: Você percorreu um longo caminho desde então. E foi ótimo ter a chance de refletir sobre isso com você. Obrigado pelo seu tempo.

JPM: Eu estou gostando muito neste fim de semana. Tem sido ótimo rever o pessoal. Obrigado.

 

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