Enfim a revolta necessária. Por Lito Cavalcanti

Vencedores GP da Malásia de F1 em 2013

Tensão na coletiva após a corrida

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Ao errar, Vettel pode ter libertado a Fórmula 1

Não se fala em outra coisa. A tão decantada e comentada ultrapassagem de Sebastian Vettel sobre Mark Webber se tornou, com inteira razão, mais importante do que todo o ocorrido no Grande Prêmio da Malásia.

Claro, as paixões se sobrepõem à razão. De um lado, ou melhor, neste corner se alinham os defensores de Vettel; no outro, seus detratores, que também podem ser vistos como os seguidores de Webber, mas na verdade não o são.

Frases e julgamentos foram brandidos como espadas; termos duros empregados com facilidade assustadoramente leviana. Muitos apontaram o dedo para Vettel, o classificaram como mau caráter. Para eles, Webber se tornou um santo.

Tudo isso me deixou com a impressão de que o ponto mais importante passou em branco. Poucos, pouquíssimos, quase nenhum dos debatedores abordou o que,a meus olhos, mais sobressai em toda a questão: o que é hoje a Fórmula 1, a que se presta, a quem serve.

Ora, a disputa, de fato pouco leal, entre Vettel e Webber já ocorre há muito mais tempo. Quem acompanhou com atenção a corrida de Interlagos no ano passado viu o australiano espremer o alemãozinho na primeira curva da primeira volta sem o menor pejo. Voltas mais tarde, tentou disputar posições com Vettel, a despeito dele estar, naquela prova, disputando o título mundial.

Anos antes, aliás, ele já havia despachado Nico Rosberg, então seu companheiro na Williams, contra o muro da curva do Café sem o menor constrangimento. Alguns de seus ex-companheiros afirmam que ele cultiva hostilidades, aprecia ambientes belicosos.

De Vettel, tem-se condenado veementemente o fato de ultrapassar Webber quando o australiano já tinha obedecido a ordem da equipe de mudar o mapeamento do motor para a função de economia – o que implica, inevitavelmente, em redução do torque e da potência.

Sim, é verdade, estas condições davam a Vettel uma vantagem injusta e insuperável sobre Webber. Não foi uma disputa igualitária, não foi o melhor momento de sua carreira esportiva. Não há como negar nem discordar.

Enfim, não faltaram pedras atiradas contra Vettel. Sim ele as mereceu. De nada adiantou a cena hipócrita de suas desculpas quando já tinha no bolso os sete pontos que separam o primeiro do segundo colocado.

Até aí, concordo com a condenação ao alemão e discordo da absolvição dos pecados do australiano. Mas gostaria de ter visto uma análise mais profunda de toda a situação do que as injúrias e os palavrões mais comuns às pouco racionais arquibancadas de futebol, onde as paixões superam toda e qualquer possibilidade de racionalidade.

No fundo, a situação é fruto de uma Fórmula 1 que nega suas próprias raízes e trata o espectador como um detalhe descartável. A lição trazida pela tonitruante vaia a Michael Schumacher no tristemente célebre Grande Prêmio da Áustria de 2002 – aquele que Cleber Machado sintetizou com seu “hoje não, hoje não, hoje sim” – já foi esquecida.

Foi um dos momentos negros da história de uma categoria que já foi rainha – hoje é apenas uma cortesã que se deita com o capital, venha ele de onde vier. As ordens de equipe, porém, foram legalizadas pela Federação Internacional de Automobilismo, entidade que, se supõe, deveria velar pelo bom desenrolar do automobilismo. Não o faz, não cumpre sua obrigação.

O que quero dizer, e o que acredito piamente, é que hoje, na F1, pouco resta a salvar. O que vi na luta entre Vettel e Webber foi um piloto se insurgir contra o sistema intolerável implantado por mentes que há anos contaminam uma categoria que já foi o suprassumo da competição a motor.

No fundo, mesmo compreendendo e admitindo que a luta era injustamente favorável a Vettel, adorei ver o alemãozinho se insurgir contra este revoltante status quo. Queria ter visto a mesma atitude por parte de Nico Rosberg, ele mais uma vítima da mente distorcida de Ross Brawn. Sim, ontem como hoje. Ele estava presente no muro da Ferrari naquele domingo austríaco de 2002.

A justificativa de Brawn era de que os dois carros da sua equipe precisavam poupar gasolina para chegar ao final. Rosberg, logo ao sair do carro, negou verdade a esta alegação; depois, pressionado pelo mesmíssimo Brawn, se disse conformado, concordou que era o melhor para a equipe.

Confesso que me senti desapontado com Rosberg. Primeiro, por não se rebelar contra as ordens de Brawn; segundo por abaixar a cabeça e se dizer convencido pelos argumentos do chefe da equipe.

A segunda-feira, porém, trouxe esperanças. Pelo menos no caso Mercedes. Tanto Niki Lauda quanto Toto Wolff, os dois novos mandatários da equipe, desaprovaram plena e publicamente a atitude de Brawn. Por mais que admire o engenheiro Brawn, anseio pelo dia em que o dirigente Brawn será banido da F1.

Na Red Bull, silêncio absoluto. Só se tem de concreto a mais do que previsível afirmação de Christian Horner, o chefe da equipe, de que o assunto será resolvido entre quatro paredes.

As especulações cruzam os ares. Fala-se que Vettel será multado, nada mais estéril; que Webber pode deixar a escuderia antes mesmo do próximo Grande Prêmio – só se for para antecipar uma aposentadoria anunciada e adiada ano após ano.

Pouco disso importa. O que realmente interessa é a Fórmula 1 se repensar, analisar a direção argentária por que optou nas últimas décadas, retrilhar o caminho da disputa justa e esportiva, despachar para longe os interesses comerciais que a sufoca dia a dia.
Desde que se tornou painel publicitário de montadoras, a categoria vem-se naufragando neste oceano milionário. Seus melhores anos foram aqueles em que 90% do grid era formado por carros equipados com motores Cosworth e câmbios Hewland, acessíveis a quem quisesse montar sua escuderia.

Naquela época, as fabricantes de pneus competiam entre si e as corridas eram incomparavelmente melhores.

Hoje, a Pirelli se submete aos desejos de Bernie Ecclestone e inunda as pistas com pneus que impedem os pilotos de disputarem todas as voltas de uma corrida no limite.

Sim, há bons momentos nas corridas, mas não podemos nos esquecer que os pilotos estão a anos luz do limite, é como se disputassem um rali de regularidade.

É essa a Fórmula 1 de hoje?

Sim, infelizmente é.

Então, só me resta dizer fora ordens de equipe, fora Ross Brawn, fora Jean Todt, fora Bernie Ecclestone.

Para encerrar de uma forma positiva: Robert Kubica estreou no Campeonato Europeu de Rali neste fim de semana. A bordo de um Citroen, ele ganhou o prólogo, venceu todas etapas do primeiro dia de competição mas sofreu um acidente que o alijou de uma vitória que se delineava a cada etapa.

Parece irônico, mas o acidente que afastou o polonês Kubica da Fórmula 1 serviu pelo menos para poupá-lo de situações como estas.

Se bem que sempre vi nele um homem que se negaria a aceitar as infames ordens de equipe. Talvez fosse o primeiro a liderar esta tão necessária rebelião.

Que ele volte logo a uma Fórmula 1 que tanto carece de dignidade.

Lito Cavalcanti

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