Ayrton Senna, muito mais que um campeão de F1

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Senna vs Mansell – Barcelona 1992

Nesta quinta-feira (21/03/2019) Ayrton Senna teria completado 59 anos de idade. Abaixo segue uma coluna em homenagem ao piloto brasileiro, falecido em 1° de maio de 1994, em um acidente no GP de San Marino de Fórmula 1.

Por: Adauto Silva

Lá em casa o mês de março sempre foi muito movimentado. Meu pai, eu, dois filhos e um primo muito próximo comemoram aniversário. Também perdi um filho no mês março.

Também em março tive meu primeiro contato com um carro real, Quando fiz 8 anos minha mãe era dona de uma loja de mini carros. E lógico, vendo minha paixão por carrinhos de ferro Matchbox, mamãe me presenteou com um mini Mustang. A partir daquele dia esqueci todos os demais brinquedos e o mini “mustanguinho” passou a fazer parte de mim.

Estreei no campeonato paulista de mini carro em março quando também obtive minha primeira vitória. As datas exatas não lembro mais, pois joguei tudo que tinha – recortes de jornal, capacete, macacão e álbum de fotos e um monte de badulaques – no lixo em 1982 logo após a morte de Gilles Villeneuve.

Dali para o mini Buggy e depois para o mini Formula foi um pulo. Participei e ganhei campeonatos e “gincanas” e eu era bom, puxa como eu era bom!

Minha ‘carreira’ acabou na última corrida de um campeonato, quando minha mãe viu pela TV Gazeta eu ficar de duas rodas na curva mais fechada do circuito, que era montado no estacionamento do Detran.

Mas eu tinha um primo, um ano mais velho que eu, cujo pai era muito rico e andava de kart. Meu primo me convidou para assistir uma corrida dele em Interlagos. Comecei a ir em todas, depois nos treinos, até que um dia meu tio percebeu minha angústia em querer andar e me ofereceu o kart reserva para eu treinar com o pessoal. O kart era rápido, muito mais rápido que os mini carros que eu estava acostumado. Mas meu tio não sabia disso. Já que eu era muito bom no mini carro, ele deve ter pensado que um kart não seria difícil pra mim. O problema quando se é criança é que não se tem muita noção do perigo. Então, apesar de ficar um pouco impressionando com a velocidade do kart, em poucas voltas eu já estava acelerando tudo que podia.

Eu não lembro exatamente se foi na primeira vez ou na segunda, que eu fui mais rápido que meu primo. Meu tio ficou animado e me inscreveu para a próxima corrida. Na época era tudo muito amador, por isso ele conseguiu me inscrever com um primeiro nome que ele inventou e mais o sobrenome dele. Tudo isso sem minha mãe saber.

O ano era 1974 e um certo Ayrton Senna da Silva detonava a molecada na pista. Ainda bem que ele corria em outra categoria, pensei.

Ayrton Senna também nasceu em março. Eu não sabia disso até o dia em que entrei no kartódromo de Interlagos para a última corrida do ano e soube que ele correria na nossa bateria. Perguntei a alguém na época por que e me responderam que era para treinar, já que ele era exatamente dois anos mais velho que eu. Bem, não exatamente, já que sou do dia 17 e ele do dia 21. Ele corria numa categoria acima e já era o campeão.

Era minha quinta e última corrida no campeonato e eu achava que podia vencer. E teria vencido não fosse Senna. Ele chegou quase meia pista na minha frente e cheguei bem na frente do terceiro colocado também. Meu primo desistiu de correr e, portanto minha carreira acabou naquele dia sem aquela vitória. Fiquei puto na época.

Nunca mais vi Senna até a F1 vir para Interlagos em 1990. Eu era torcedor do Piquet, portanto me importava mais com o que acontecia com ele do que com Senna. Mas não pude deixar de notar, já na sexta-feira, o piloto absolutamente fora de série que tanto falavam. Ele tinha uma relação de marcha diferente de todos, tradição que trazia do kart, quando também usava uma relação de pinhão e coroa diferente de todos. Foi a primeira coisa que notei. Depois vi que na curva do lago ele era o último a frear e o primeiro a reacelerar. Mais um pouco e notei que o traçado dele no Laranjinha também era diferente.

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Mas o grande momento foi no sábado. Berger tinha feito uma volta fantástica e faltando cinco minutos para o fim ele era o pole. Havia muita tensão no autódromo quando Senna foi à pista, mas durante sua volta para aquecer os pneus toda a arquibancada o incentivava. Assim que ele cruzou a reta do boxes para abrir sua volta voadora deu-se um silêncio estranho em Interlagos. Todo mundo quieto, parecia que um jogador de tênis ia sacar. E então Senna veio contornando a pista – o motor e as trocas de marcha bem audíveis – enquanto a multidão parecia estar sem respirar. O suspense aflorava nas pessoas, todos acompanhando com total atenção. Era difícil superar Berger, a volta dele tinha sido acima das expectativas. Eu não acreditava que Senna conseguisse. Mas quando ele fez a curva do Lago e começou a subir para o Laranjinha eu passei a acreditar. Não sei se porque ele fez o Lago como ninguém ou porque aquela onda positiva que estava por todos os lados começou a me afetar. Mas então eu me peguei olhando fixamente enquanto ele fazia o miolo inteiro e pela primeira vez na vida quis que ele conseguisse.

E ele conseguiu – aliás, como quase sempre – e Interlagos veio abaixo como num gol da seleção em final de Copa do Mundo. Eu nunca tinha visto aquilo. Foi a primeira vez que senti o que Ayrton Senna representava.

Não, eu não virei torcedor de Ayrton Senna naquele dia. Eu era e continuei sendo Piquetista, mas naquele momento percebi que Senna transcendia a questão de ídolo. Ele não representava apenas o melhor piloto de F1, mas muito mais que isso. Gostando ou não ele representava um povo, uma nação e suas mais desafiadoras aspirações. Num país sem rumo, cheio de políticos corruptos e seus planos econômicos mirabolantes, num país que fracassava ano após ano em todas as áreas, onde parecia que nada daria certo, nem mesmo no futebol – há duas décadas fracassando -, Senna dava certo, muito certo, entregava mais do que se esperava dele. Tornou-se uma entidade, um herói.

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Com seu discurso patriota, suas pequenas atitudes sempre citando o povo brasileiro e levando a bandeira do Brasil na volta da vitória, ele personificava a resposta que o brasileiro precisava, o ser capaz, a determinação e acima de tudo a vitória.

Algumas pessoas menos sensíveis não entendem ou não aceitam isso até hoje. Acham que Senna foi apenas um simples campeão de Formula 1. Não conseguem entender o momento histórico em que ele surgiu, tudo que personificou e o que sua morte na pista significou.

Tenho pena deles, pois não sabem o que estão perdendo!

Um abraço e até a próxima!

Adauto Silva
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