Amigos, amigos…

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Lewis e Nico se cumprimentam após Abu Dhabi

Por: Fernanda de Lima

Sempre dizemos que na F1 o primeiro adversário de um piloto é o seu próprio companheiro de equipe. Acho que a grande maioria concorda, certo? A não ser quando há um primeiro piloto definido e o segundo é declaradamente o fiel escudeiro, mas não caiamos nessa discussão hoje. Então, o cara que você tem de bater primeiro para sonhar em vencer alguma coisa está dentro da sua própria casa, e por isso não consigo deixar de fazer uma analogia desse esporte com a “vida real”.

Nos primeiros anos de vida nossas competições contra o outro acontecem contra um outro que está bem próximo de nós. Os irmãos são nossos primeiros adversários na competição pelo brinquedo, pela atenção dos pais, para nos sentirmos um pouquinho mais especial que o outro. Isso também acontece nos tempos de escola, com os amigos. Competimos naturalmente contra eles, seja pela atenção do/a garoto/a mais bonito/a da escola até mesmo pela melhores notas ou para ver quem se dá melhor na queimada. Nós queremos sempre ser os melhores contra eles. Como classificaríamos isso? Inveja? Acho que não, porque na maioria das vezes há um detalhe que muda todo esse cenário: você pode até querer ser melhor que seus irmãos e amigos, mas você evita a trapaça ou quando trapaceia sente-se mal por isso. É aquela velha história “eu posso falar mal do meu irmão mas não admito que outros o façam”. Essa proximidade geralmente leva à rivalidade, que por sua vez leva ao respeito.

Por que acabei caindo nessa história? Porque lembrei dessa cena da foto acima entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg, e do quanto ainda há vida nisso tudo. Eu fiquei emocionada com o gesto de Nico, com o olhar de Lewis – tanto aí quanto no pódio. Se associarmos a tudo isso que eu disse antes, não teria como ser diferente. O alemão não teria como não ter cumprimentado um cara que cresceu com ele no esporte. Maior que a dor da derrota há o respeito, o respeito de quem perdeu para um irmão, um amigo de longa data, um vencedor. Ali no abraço, no olho no olho ficaram todas as farpas de uma temporada, ficaram todos os joguinhos psicológicos extremamente bem feitos e necessários para manter aceso o espírito de competição. Não quero incitar a nada, mas para mim tem de existir a provocação na competição. É o seu melhor instigando o outro e melhorando-o consequentemente. O que os filhos da Mercedes nos deram esse ano foi uma aula de competição saudável, aquela competição de irmãos, com picuinhas mas que no final do dia fica tudo bem.

E acompanhamos vários momentos desses. Já no GP do Bahrain, em abril, depois daquela batalha sensacional entre os dois e da vitória de Hamilton, Rosberg soltou: “Não é a primeira vez que estivemos em uma batalha contra o outro ou a primeira vez que estivemos perto demais. Nós tivemos muitas batalhas aos 12 anos”. Hamilton também relembrou a infância: “Foi mais como uma corrida de kart. Espero mais corridas como essa ao longo do ano”. E quanto aos tais jogos psicológicos? Enquanto o alemão engatava quatro vitórias seguidas, Hamilton declarava que precisava encontrar uma maneira de “quebrar a sua força mental”. Mantendo a cabeça em pé, Rosberg jogava do outro lado: “Me quebrar mentalmente? Ele realmente vai ter dificuldade nessa”. Em Mônaco as coisas esquentaram com aquela manobra polêmica de Rosberg no treino de classificação. Hamilton, quando questionado sobre a amizade entre os dois, logo declarou “As pessoas estão sempre falando de amigos. Eu posso contar meus amigos em uma mão. Tenho certeza que Nico também. Ele não está entre os meus cinco e não estou entre os dele”. OUCH! Mas só levou o tempo de a poeira baixar para o inglês postar uma foto dos dois magrelinhos nos tempos do kart: “Somos amigos há muito tempo e como amigos temos altos e baixos. Hoje conversamos e está tudo bem, ainda amigos #semproblemas”.

E se pararmos para analisar cada corrida da temporada, vamos encontrar detalhes como esses que contribuíram para esse excelente ano, para torcemos por um ou outro, para ficarmos com o coração na mão na última corrida, vibrando com a ambição de Hamilton e com a vontade de completar a prova com um carro sem condições de Rosberg. É incrível o que a proximidade deles desde os tempos do kart nos proporcionou. Fossem outros, com outras histórias, talvez, não tivesse sido tão bacana de acompanhar.

O campeonato merecia um desfecho como esse, merecia mais que tudo um campeão como o inglês nascido na pequena Stevenage em 07 de janeiro de 1985. O pai de Lewis, Anthony, teve grande influência na paixão do filho pelos carros. Aos 6, 7 anos, o garoto mostrava habilidade com carrinhos de controle remoto, o primeiro passo para o início do sonho. Foi logo após vencer o Campeonato Britânico de Kart que o futuro bicampeão do mundo conheceu Ron Dennis, o todo-poderoso da McLaren. O garotinho de 9 anos não se intimidou e apresentou-se para Dennis como “Lewis Hamilton. Vencedor do Campeonato Britânico e o piloto que um dia gostaria de pilotar seus carros”.

Hamilton levou três anos, títulos e prêmios no kart para chegar à McLaren. Em 1998, ele juntou-se ao programa de jovens pilotos da equipe, e com o apoio dela foi campeão europeu e do mundo de kart. Fórmula Renault, Fórmula 3, GP2, títulos e quase dez anos de escalada para chegar à categoria máxima do automobilismo. Sua estreia em 2007 foi empolgante: terceiro lugar! A vitória veio meses depois no GP do Canadá. Em julho daquele ano, Hamilton tornava-se o piloto mais novo a liderar um mundial. Perdeu o título por um ponto de diferença para Kimi Raikkonen da Ferrari, mas naquele ponto era impossível dizer que Hamilton não havia conquistado o mundo. No ano seguinte, um quinto lugar na última prova do ano, em Interlagos, garantiu-lhe, aos 23 anos, o seu primeiro campeonato.

Os anos seguintes foram de aprendizado para o garotinho do carrinho de controle remoto. A imprudência muitas vezes se sobrepôs ao talento do piloto. Com o amadurecimento veio a necessidade de mudança, aliada a uma coragem magnífica. Deixou a McLaren como quem deixa a casa dos pais para viver novas experiências e rumou para a Mercedes. E o resto? O resto vai ficar para a história: bicampeão mundial. Justo. Merecido. No braço. No talento. A Mercedes agora tem um “irmão mais velho” com nome e sobrenome de gente grande.

Fernanda de Lima

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