Agora só restam as palavras. Por Lito Cavalcanti

Fernando Alonso e Sebastian Vettel - F1 2012

Fernando Alonso e Sebastian Vettel - F1 2012

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Alonso usa tudo que pode para abalar Vettel

 

Ao fim do Grande Prêmio da Índia, após uma atuação que lhe permitia todo e qualquer comentário mas ainda o mantinha cada vez mais longe de um título que por muito tempo parecia inevitavelmente seu, Fernando Alonso disparou: “Estou lutando contra Adrian Newey”. Ele inaugurava ali uma nova fase da guerra que vem travando, até agora em vão, contra a Red Bull – mas não só. Há, naquelas palavras, alvos múltiplos. E também uma indisfarçável disposição de lutar até o fim, com todas as armas possíveis.

À primeira vista, salta aos olhos a tentativa de desestabilizar Sebastian Vettel dizendo que se ele não tivesse carro tão bom sua vida seria diferente – palavras que, na verdade, nunca afetariam um adversário maduro. Ora, o alemãozinho pode ser jovem, mas nada tem de bobo. Por que se incomodaria com a constatação de que sua principal qualidade é guiar um carro de Newey? Ele mesmo reconheceu isso ao condicionar à contratação de Newey seu ingresso na Ferrari em 2015, porque 2014 já parece fora de questão. Todos sabem, inclusive Alonso, que na atualidade o sucesso na F1 se deve infinitamente mais à máquina que ao fator humano. Há quem fale em 90 e 10 por cento.

Suas palavras tinham, na verdade, outro endereço. Elas visavam o departamento técnico da Ferrari. Na Índia, o espanhol contou com novas aletas laterais na asa dianteira, um novo difusor e tomadas de ar dos freios traseiros igualmente renovadas. Tudo funcionou a contento, o que o forçou a mudar o repetidíssimo mantra de que “a sete corridas meu carro não recebe uma inovação eficiente”. Não era mais cabível criticar a evolução da Ferrari 2012 – um carro cujo ponto mais fraco no começo do ano era a baixíssima velocidade final tinha exatamente na excelente velocidade final sua arma principal na Índia. Mas ficou no ar a sugestão de que a Red Bull é mais eficiente que a Ferrari.

Na quinta-feira, depois de uma longa conversa com o diretor técnico Pat Fry, Alonso disparou o torpedo: “Antes das corridas, aqui na Ferrari só se fala em evoluções, mas palavras não bastam”. É ou não uma provocação? Talvez o terno certo seja uma incitação, uma maneira de instigar ainda mais os já estressadíssimos engenheiros da Casa de Maranello. Para muitos, atribuir a raiz dos problemas a ineficiência do túnel de vento não é convincente. Gary Anderson, renomado projetista inglês que brilhou na equipe Jordan nos anos 90, publicou na revista inglesa Autosport uma análise na qual diz sem meias palavras que todo e qualquer túnel fornece resultados que precisam ser bem entendidos e analisados – sem isso, os erros são inevitáveis.

Certo ou não, notou-se na Índia uma mudança na forma de trabalhar da Scuderia Rossa. Como ensinou Mario Andretti há duas semanas, os esforços foram voltados com bem mais ênfase para o acerto dos carros, visando o ganho de velocidade final. Deu certo: ao fim das duas sessões da sexta-feira, o carro de Alonso era o nono mais rápido, com 316,3 km/h, e o de Massa o 11º, com 315,9; no treino livre do sábado, Massa era o 4º, com 320 km/h e Alonso o 5º, com 319,7; no qualify, foram de novo 4º e 5º, Massa com 319,9 e Alonso com 319,8. Chegada a corrida, foi exatamente a altíssima velocidade final dos dois Ferrari (Massa 4º com 320,1 e Alonso 5º com 320 redondos) que lhes possibilitou ganharem posições quando necessário. O mais notável no caso do brasileiro, que não dispunha de uma asa dianteira igual à de Alonso (só havia uma à disposição), recebeu na 20ª volta a desagradável notícia de que devia economizar combustível.

Se alguém podia reclamar de erro da equipe, este alguém era Felipe Massa – mas ele prefere jogar o jogo da lealdade a quem trabalha com ele. Conhecido como um dos que impõem maior consumo de gasolina, o circuito de Buddh exige aferição milimétrica do consumo, e o do carro do brasileiro foi afetado pelas duas rodadas que arruinaram os dois jogos de pneus que ainda lhe restavam o impediram de fazer a tradicional simulação de corrida no segundo treino. Só que as duas rodadas decorreram de um mal entendido entre os engenheiros e os mecânicos, que deram carga aerodinâmica total na asa dianteira. Assim, a frente do carro, pregada no chão, provocava derrapagens incontroláveis das rodas traseiras. Não fosse por isso, Felipe poderia ter exercido mais pressão sobre a McLaren de Button, o quinto colocado, ou até se inserido na luta pelo terceiro lugar entre Lewis Hamilton e Mark Webber.

Seja como for, o que parece claro e insofismável é que, em seu melhor momento, o carro da Ferrari precisou de uma falha do KERS do Red Bull de Mark Webber para chegar em segundo – e segundos lugares já não bastam. Além de genial, Adrian Newey é também um trabalhador incansável. Na Índia, seus carros tinham retoques nos canos de escapamento para melhorar o aproveitamento do fluxo dos gases de descarga pelo difusor, obtendo assim maior pressão aerodinâmica. É tamanho seu nível de detalhamento que seus carros carregam uma câmara térmica, ou talvez infravermelha, na carenagem do lado direito da tomada de ar do motor para observar com mais precisão os caminhos que percorrem os gases que saem do escapamento – e suas consequências sobre partes vitais dos carros, como os braços de suspensão e os freios traseiros, submetidos a temperaturas altíssimas.

Para lutar contra Newey, e Alonso está certo ao dizer o que disse, é preciso mais do que a habilidade de um piloto, por mais Alonso que ele seja. Por isso, se entende seu desabafo/provocação; por isso se entende porque Vettel não deu nem dará a menor importância ao que diz seu adversário. Ao ponto de, quando lhe perguntarem se ele já tinha uma das mãos na taça, se dar ao luxo de responder com elegante cavalheirismo: “Se tenho uma mão, a outra quem tem é Fernando”.

Pode até parecer que não, mas existe mais do que do que Red Bull e Ferrari, Vettel e Alonso no mundo da Fórmula 1. Mas tudo, à exceção deste quarteto, parece mais transitório do que já foi algum dia. Exemplos não faltam. Como a cantada e decantada competitividade dos lindíssimos carros negros e dourados da Lotus. Pareciam ser a febre da fase inicial até à metade da temporada; deles louvava-se a economia dos pneus e a excelente velocidade final. Pois bem, em sua segunda corrida com o escapamento Coanda, aquele que direciona os gases de escapamento para o difusor, Kimi Raikkonen era espantosamente o mais lento nas retas. Sua velocidade mal passava dos 310 km/h, superado até pelos tradicional e propositalmente lentos Red Bull. Mas se os carros de Webber e Vettel atingem velocidades mais baixas no fim das retas, são extremamente rápidos no início delas por privilegiarem a aceleração e para isso abrirem mão de serem velozes ao fim delas. E a mesma qualidade que lhes dá maior tração, a enorme aderência proporcionada por uma pressão aerodinâmica ainda inigualada, os faz também muito mais rápidos nas curvas.

Outra mudança que começa a ser comentada é a preferência da equipe Williams por Pastor Maldonado. Mais uma vez, ele se envolveu em um incidente no mínimo controvertido ao ter seu pneu traseiro direito cortado em um esbarrão perfeitamente evitável, gratuito, após ultrapassar Kamui Kobayashi. Logo após passar o Sauber, o venezuelano puxou seu carro para a esquerda, a fim de fazer a tomada da curva seguinte, que era para a esquerda. Só que ele fez este movimento cedo demais e a afiada asa dianteira do carro do piloto japonês cortou seu pneu. Maldonado tinha chegado ao Q3 e fora o nono no grid, mas com mais este erro desperdiçou, mais uma vez, pontos preciosos para a equipe.

Por seu lado, Bruno compensou o erro que o relegou ao 13º posto de largada com uma corrida sóbria e eficiente. Sereno, equilibrado, fez uma bela ultrapassagem sobre Nico Rosberg e foi o 10º, marcando mais um pontinho. Sim, não é nada de deixar a equipe eufórica, mas esta foi a oitava corrida em que ele marcou pontos, enquanto Maldonado só o fez em três ocasiões. Pode-se alegar, com justiça, que em uma delas, o venezuelano conquistou uma vitória que ninguém da equipe sequer sonhava obter neste ano de reconstrução. Mas também é de inteira justiça lembrar que Bruno é muito prejudicado pela absurda cláusula contratual que o obriga a observar dos boxes enquanto o finlandês Valteri Bottas dá seguimento a seu processo de adaptação à Fórmula 1 nas primeiras sessões de treinos livres em todos GPs disputados em circuitos fixos.

Mesmo em um momento em que só há um único candidato às vitórias nos Grandes Prêmios que restam, este campeonato ainda se mostra o mais imprevisível dos últimos anos.

Lito Cavalcanti

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